Contra o Céu
Luisa Duarte - 2009
Em uma parecem ser lâmpadas enfileiradas e suspensas no ar. Em outra, um sinal verde reluz. Há aquela que parece revelar um triângulo evocando a lona de um circo acesa, ou, se buscarmos, podemos avistar uma constelação mais adiante. Em comum, existem as luzes contra o céu, que pode ser o da manhã, do cair da tarde, ou o negro profundo, que se dá quando a lua é nova e abre espaço para as estrelas.
Demorar-se na observação da relação das luzes contra o céu, ou se apropriar de uma fotografia que revele tal imagem, é o primeiro momento da maior parte das pinturas reunidas na exposição de Patrícia Leite. Apesar da figuração existente em suas praias, areias, mares, pedras, lonas e céus, a obra da artista traz consigo uma insuspeita dose de abstração. Estes elementos reais surgem antes como massas de cor. Assim, é a composição entre as cores que nos dá a ver tais elementos reconhecíveis na realidade. Nós conseguimos identificar um mar, um trecho de areia ou uma série de lâmpadas, mas antes pelo nosso poder e tendência de figurar o que é quase abstrato do que por uma figuração já dada. Se muitas vezes a fotografia é o princípio referencial dessas pinturas, note-se a inversão processada pela artista. Da realidade fotográfica surge uma pintura que, ainda sendo figurativa, é atravessada por uma dose de abstração, trazendo uma densidade que instiga o olhar a ir decompondo abstratamente e construindo figurativamente a um só tempo.
Se afirmamos que nessas pinturas uma montanha ou um pedaço de mar são menos construídos por traços precisos, e mais pela composição de espaços cromáticos, torna-se possível entrever a importância desse elemento na obra da artista. É em grande parte ela, a cor, uma matéria que vista isoladamente pode possuir atributos meramente formais, que irá apontar para camadas significantes no trabalho da artista. Diante das pinturas de Patrícia, há que se saber ver e sentir as cores, para daí pensá-las.
Vejamos algumas obras específicas. Em “Lâmpadas III”, vê-se um vermelho sangue escuro que revela uma forma triangular um tanto informe; uma série de pequenos círculos brancos enfileirados remete a uma iluminação suspensa; ao fundo o céu azul já está escurecido, não é meio dia, tampouco meia noite. No canto superior direito da composição temos uma camada de preto difícil de ser figurada. Este preto poderá ganhar a conotação de um trecho de uma montanha caso olhemos para a obra “Lona Acesa”, na qual avistamos a lona do que poderia ser um circo e uma cadeia montanhosa ao fundo. Uma espécie de síntese dessas duas pinturas, “Lâmpada II” mostra tão somente as pequenas lâmpadas brancas suspensas contra um céu azul. Se fizermos a experiência de deixar a galeria às escuras, veremos que dos círculos brancos irradiará luz. É o branco que ilumina. A artista, no início do processo de pintura, preenche toda a madeira com a cor branca, e passa a colorir o entorno, deixando os círculos no branco original. Quando todo o resto foi tomado por outras cores, as lâmpadas/círculos/brancos acendem.
A luminosidade que irrompe das cores está presente em quase toda a obra da artista. Ou seja, aqui interessa menos a temática, a representação, mas sim o trabalho cromático e de composição exercido sobre a tela, bem como o que há de luminosidade na própria cor e os significados e sensações que ela pode deflagrar. A relação de luz/cor contra o céu é o denominador comum a ser apreendido pelo nosso olhar diante dessas pinturas.
Se o fim da tarde, aquele momento de lusco-fusco, espécie de vão entre o dia e a noite, no qual as cigarras cantam e as luzes acendem, evoca uma sensação de melancolia, o azul do meio dia presente no painel “Sinal” transpira afirmação e vitalidade. Como se não bastasse o céu solar, há o sinal verde, como que dizendo sim em uníssono com a vida e a hora do dia que o acompanha.
Há ainda, na exposição, as pequenas marinhas que formam a série nomeada “Arpoador”. Aqui, a escala é menor, solicitando uma aproximação maior de quem olha. Nestas pequenas pinturas vêem-se claramente alguns aspectos que perpassam muitas das obras da artista. Mesmo se tratando de vistas de uma praia, nota-se um olhar urbano e nada ingênuo diante da natureza. Temos uma paleta com poucas variações cromáticas, sem áreas de sombra. Areia, vegetação, espuma e mar estão em um só plano, não perspectivados. Nosso olhar não se alonga, mas caminha num campo onde a economia, e não o excesso, dá as cartas.
Na contra mão da superlatividade que domina a vida cotidiana, no caminho inverso da pressa instaurada por um mundo que solicita andar sempre para frente em busca sabe-se lá do que, o trabalho de Patrícia Leite deflagra um outro ritmo que por sua vez nos solicita um novo olhar. Mesmo com a luz intensa que dela irrompe, sua obra não grita, seu partido é o de uma discrição altiva. As pinturas de Patrícia, para mim, sempre surgiram como a evocação encarnada de um outro espaço e tempo, a possibilidade de, em meio ao caos em que vivemos diariamente, estabelecer uma pausa, uma suspensão através do negro profundo pontilhado de brancos com uma linha lilás abaixo. Essa restauração de uma espécie de esperança ou a instauração de um outro modo de estar no mundo, mesmo que breve, são aspectos que concernem à arte e que o encontro com a obra dessa artista proporciona. Demorar-se nos seus céus ou nas suas marinhas é fazer o tempo dançar, ao invés de marchar.