Minha corda de areia
Laura Vinci - 2011

...Thy rope of sands ...
George Herbert ( 1593-1623) citado por Borges como epígrafe do conto O Livro de Areia


Não tem muito tempo passei pela frente da minha casa de infância e da adolescência. Na verdade onde sempre vivi antes de sair para me casar. Foi uma coincidência. Estava voltando de uma exposição de réplicas dos esqueletos de dinossauros encontrados na América latina. A exposição era um pouco bizarra. Tudo bem com os dinossauros , eram réplicas importantes, o estranho é que estavam todos no átrio de um shopping center. Como sou louca pelos dinossauros fui levar meu neto para mostrar-lhe ao vivo os esqueletos. Que, aliás, achei pequenos. Pensava que eram muito maiores. Já tinha visto um em algum lugar, que me pareceu enorme. E ele, coitadinho, relatou ao pai sua decepção: achou que iria ver os bichos vivos. Estávamos no carro, de volta, quando passamos pela frente da antiga casa. Claro que não tinha sido a primeira vez que passava por lá. Imediatamente, sem parar o carro, tive aquela sensação, que nós todos temos, de perceber o espaço da infância, que era enorme, tornar-se pequeno. Como é que a distância entre minha casa e a esquina, que era tão extensa, ficou tão curta, se nada havia de fato mudado? Como não? No mínimo, dobrei de tamanho. Certo. O estranho é que, ao mesmo tempo , não mudei nada. Sou exatamente como aquela menina, talvez da mesma idade dele, meu neto, que investigava a morte do peixe dourado em suas mãos; uma das minhas lembranças mais remotas passadas no quintal daquela casa. Aquele peixe dourado não diminuiu em nada o seu tamanho na minha memória, ele é exatamente igual. Imagino sua medida com os dedos, e é mesmo a mesma dos peixes que estão no aquário da filha da minha professora de inglês. As medidas afetivas são diferentes, não mudam na memória. Só o espaço muda? O mundo de todo mundo mudou. Hoje vemos ele de cima: a impressionante visão do rio Amazonas na chegada a Manaus; à vista o velho mundo! - a península ibérica, a bota da Itália. Iguais ao mapa! Já tão desenhado. A linda imagem, de um fotógrafo conhecido meu: nadadores em suas raias numa piscina aberta . O silêncio dos Andes. As massas dos brancos das nuvens. As luzes das cidades...
Num tocar de dedos, partimos, virtualmente, de junto das estrelas até o portão das nossas casas, passando pelas nítidas e inúmeras cordilheiras que hoje vemos no fundo do mar. E recentemente, vimos que a terra nem é tão redonda assim.


Depois de quatro anos volto a expor na galeria Nara Roesler, é a terceira vez que me instalo nela. Depois de tantas andanças, é de certa forma, como voltar para a casa. Ela foi recém reformada , está toda nova , mas ao mesmo tempo , igual. Só que estranhamente me pareceu menor. Fico ali, para ver bem o que se passou. Faço o exercício mental de encaixar nos espaços os lugares que imaginei para a exposição: diminuo uma porta, coloco uma cortina metálica para separar as salas, passeio tentando captar a diferenças possíveis das atmosferas entre os lugares imaginados. Respiro. Vou para a rua. Vejo o espaço da galeria do lado de fora. Sua nova vitrine. Entro novamente. Tento transpor com medidas entre os dedos as maquetes criadas no ateliê para a escala real. Preciso fazer daquele lugar meu. Vou para casa. Revejo as plantas, comparo com as antigas. Repasso as medidas. Espero.


Acordei de um sonho simples: Era só uma baleia na beira do mar. Sua cabeça bem definida (acho que era do tipo cachalote) estava toda de fora, o resto do corpo não se via, possivelmente ainda estava debaixo da água. Era bonita, lustrosa, nítida. Sem aquelas crostas dos bichos hospedeiros. Segui o dia. Só depois me dei conta de que baleias na beira do mar geralmente morrem. Não quis que a minha baleia morresse, arrastei-a com toda a força para o fundo da água.
Só muito recentemente aprendi que os peixes cantam. Sabia do canto das baleias, mas elas não são peixes. Um dia vou lá escutá-los. Talvez só quando o tempo parar de passar por mim.





Neste ano perdi um amigo novo. Tinha praticamente a minha idade. Fizemos, nos últimos dois anos, alguns trabalhos juntos. Foi em Lisboa, em outubro do ano passado, a última vez que o vi. Era onde vivia, embora fosse brasileiro e sempre estivesse por aqui. Essa última vez que o vi foi no seu lugar de trabalho, onde regia sua invenção sem qualquer afetação. Cuidava de todos nós como uma família. Nos fazia comida enquanto trabalhávamos. Não pude me juntar aos outros no ritual de sua morte. Estou fazendo-o daqui. Sempre que me lembro dele, acho que ele ainda está lá, em seu lugar. Tenho que corrigir meu coração e lembra-lo de que ele não está mais lá e nem mais em nenhum lugar. É muito doloroso. Mas acho que um dia vou me acostumar. Esta exposição é dedicada a ele.


Para Paulo Reis.




Agradecimentos:

Para esta exposição contei com muitos colaboradores. Queria agradecer especialmente a Tatiana Tatit , minha assistente. Que sem ela eu não seria nada! Ao Paulo Sérgio, que já há mais de dez anos sempre topa enfrentar toneladas de pedra. A toda a equipe da Galeria Nara Roesler, Marília Guimarães Teixeira, Daniela Lorenzi, Kaloan, Thiago Jatobá, Gerson e seu Carlinhos.

Baixe o DOC com o texto completo aqui
desenvolvido por