Hélio Oiticica e Neville D´Almeida - CC4 NOCAGIONS/Block-experiments in Cosmococa - programa in progress
Paula Braga - 2006

Entre 1973 e 1974, Hélio Oiticica e Neville D´Almeida desenvolveram a série Cosmococas programa in progress, um experimento com cinema construído graças ao encontro de duas investigações artísticas. Neville D´Almeida já havia feito experiências com narrativas fragmentadas e não-representativas em filmes como Mangue-Bangue (1971). No início dos anos de 1970, Hélio Oiticica levava adiante seu programa de reinvenção da arte por meio da expansão de idéias do Construtivismo. Quando a fragmentação do cinetismo proposta por Neville encontrou a pesquisa de Hélio sobre estados alterados de consciência (o “suprasensorial”) e descondicionamento comportamental, um novo cosmos para a arte explodiu em trabalhos tão radicais que trinta anos se passaram até que fossem exibidos em público pela primeira vez.

Escritor prolífico, Hélio Oiticica registrou em ensaios e cadernos de anotações a genealogia das Cosmococas, quasi-cinema feito com “o carrossel de slides, a trilha sonora, as instruções e o tempo”, nas palavras do artista para seu amigo Augusto de Campos. A cocaína é aqui incluída naquilo que Oiticica nomeia como “tempo”.

A cor branca aparece nos trabalhos e textos de Hélio Oiticica em relação à noção bergsoniana de tempo desde o final dos anos de 1950. A obra, ele escreve, não deveria se desenvolver só no espaço, mas também no tempo (“Cor, Tempo, Estrutura”, 1960). Oiticica considerava o branco como sendo uma “cor-tempo” que “favorece a duração silenciosa”, pois o silêncio emanado pelo branco torna a duração mais perceptível. O branco é também, para Oiticica, a cor da junção, síntese de outras cores e durações.

Cosmococa CC4 Nocagions é a mais branca das cinco CCs que Oiticica e D´Almeida planejaram juntos. John Cage – cuja obra Silence Oiticica havia lido – aparece na capa branca de seu livro Notations e nas peças para piano preparado que Oiticica e D´Almeida escolheram para a trilha sonora. CC4 Nocagions também homenageia Malevich, cujas pinturas de branco sobre branco aparecem recorrentemente nos escritos de Oiticica como sinônimos de invenção, a procura incessante pelo novo.

Em CC4 Nocagions o participante é incitado a entrar em uma piscina circundada por luzinhas azuis. No fundo da piscina, um triângulo feito de lâmpadas verdes definem uma “área verde”. O vértice do triângulo e as facas usadas para desenhar as trilhas de cocaína que aparecem nos slides remetem-nos aos Secos, guaches que Oiticica pintou no final dos anos de 1950, quando a cor ainda não havia escapado do plano. Em alguns dos slides que Neville
D´Almeida fez para CC4, a cocaína preenche toda a capa do livro de Cage e cria uma textura similar ao efeito que as pinceladas de Oiticica produziram nas pinturas monocromáticas do início dos anos de 1960 chamadas de Invenções.
O participador vê as pontas cortantes das facas enquanto sente o não menos cortante frio da água da piscina em sua pele. As peças para piano preparado de John Cage também sugerem a sensação de “sons pontiagudos”, exigindo do ouvinte um esforço para a construção de um continuum musical.

A fragmentação do cinetismo e a ilusão de “live action” são o cerne da pesquisa de Oiticica e D´Almeida sobre cinema. Cortar o cinema em seqüências de slides como pontos discretos e não como uma curva contínua quebra a ilusão criada pela projeção de 24 quadros por segundo. A “live action” no quasi-cinema depende do movimento do participante, ação real, ou duração, como articulado por Bergson. O quasi-cinema de Hélio Oiticica e Neville
D´Almeida é uma reinvenção do cinema feita na concretude do corpo.

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