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Jacopo Crivelli Visconti - 2011

O casamento é no campo, o noivo não chega. A noiva, de braços cruzados, olha para longe, imóvel, enquanto o vento levanta seu véu e seu vestido, deixando à vista tornozelos firmes e sapatos pretos. Ao lado dela, outra mulher a acompanha na espera, no que parece ser um vestido florido, mais curto que o da noiva, e menos sensível aos caprichos do vento, tanto que quase não se mexe, apenas se levanta fugazmente, e volta a cair. Essa rigidez do vestido sugere um tecido grosso, áspero e acabado sem excessivos requintes. É um vestido de festa, mas de muitas festas, um dos poucos no armário da irmã da noiva (deve ser a irmã: os mesmos cabelos pretos, os mesmos tornozelos fortes e bem plantados no chão, a mesma cor de pele). Perto delas, mas longe o suficiente para deixar claro para todos que não se sente parte do grupo, a filha pré-adolescente da irmã da noiva (nesse caso, são os chifres a sugerir uma relação) observa-as, ou talvez olhe apenas na direção em que elas por acaso se encontram, mas para bem longe, muito além delas. Também é possível que, apesar de tudo, não sejam mesmo irmãs, apenas vizinhas . Moram perto dali, atrás do muro bege, em casas geminadas. Vieram até aqui para entender o que estava acontecendo: a menina, que agora se acalmou e fica olhando para o chão, chorava, não conseguia se explicar, as duas saíram de casa apressadas, sem pegar casaco, e agora tentam proteger-se do frio cruzando os braços, mas não está adiantando muito, e elas continuam sem entender. A menina vez por outra murmura algo quase incompreensível, fragmentos de uma história, ou de um sonho: uma mexicana que segurava uma flor vermelha (uma gérbera, será que ela disse mesmo gérbera?), a mão de um menino que, emergindo de algum lugar, roubava um balão laranja. Talvez fosse o balão da menina, e por isso ela chorava. Ou talvez fosse medo mesmo, medo dessas vozes que ela não para de ouvir…

As pinturas recentes de Cristina Canale, se com recente entendemos as produzidas ao longo da última década, são cheias de histórias assim, que começam e não terminam, que criam atmosferas, colocam as premissas, introduzem os personagens e param. A presença recorrente de manchas de cor que, assim como podem vir a representar elementos reconhecíveis também podem ficar amorfas, e alguns toques surreais, bem exemplificados pelos chifres das que imaginamos ser a irmã da noiva e sua filha, transportam-nos para um universo onírico, fabuloso. As histórias contadas por essas telas não estão necessariamente comprometidas com a realidade do jeito que a conhecemos, poderiam derreter-se a qualquer momento, dissolver-se em algo irreconhecível. Essa dissolução latente é a ameaça que paira, como uma morte anunciada, sobre todos os personagens das histórias de Cristina Canale. A crítica tem analisado esse embate entre a figuração e a abstração nas suas pinturas, geralmente, de um ponto de vista formal e, mais especificamente, cromático, como se tudo se reduzisse a uma questão pictórica, quase autorreferencial. Essa leitura, mesmo que indiretamente, situa esses trabalhos na linhagem pictórica modernista, que entendia o quadro como um espaço autossuficiente, em que as cores e as formas remetem apenas a si mesmas, sem nenhum desejo de reproduzir algo externo, consequentemente tendendo a enfatizar e escancarar as caraterísticas fundamentais da pintura (bidimensionalidade, matéria da tinta etc.), que em outras épocas eram vistas como obstáculos a ser superados, mimetizando-os até fazê-los desaparecer. E, de fato, as telas de Cristina Canale são abertamente “pinturas”, no sentido que não aspiram a ser confundidas com janelas abertas, por onde o espectador estaria observando o mesmo mundo que o rodeia, para recorrer à célebre metáfora de Leon Battista Alberti. Isto é, sua figuração não tem nenhuma ambição mimética.

Por outro lado, é necessário ir além de uma leitura apenas formalista: nas telas de Cristina Canale existe, colocada com a mesma clareza e mantida num estado de suspensão e indefinição análogo ao que caracteriza a luta entre abstração e figuração, um impasse da narrativa, que oscila entre a construção de histórias reconhecíveis e quase convencionais em sua aparente linearidade (um casamento, uma visita ao zoológico com a neta, uma aula de violino etc.) e o abismo de um mergulho sem volta na afasia da pura cor; entre premissas claras, principalmente no que diz respeito à maneira como as cenas e os personagens são construídos, e a interrupção abrupta das histórias que a artista, consciente e até programaticamente, escolhe não desenvolver para além dessas premissas. Se essa correspondência entre forma e conteúdo é evidentemente coerente, ela instaura também um curto-circuito crítico, no sentido de que, se, como vimos, as premissas pictóricas poderiam ser consideradas ainda inscritas na tradição modernista, a narrativa fragmentada, onírica e, em última instância, indecifrável coloca-nos em cheio no âmbito da pós-modernidade. Apesar de acadêmica, a contraposição entre os aspectos “modernistas” e “pós-modernistas” desses trabalhos tem o mérito de evidenciar a complexidade de uma obra que está longe de encerrar-se em questões formais ou técnicas. De fato, a análise do caráter truncado das histórias, e a maneira como, apesar disso, a obra de Cristina Canale não se furta a seguir contando algo, permite imaginar que o estímulo para a criação surja, para ela, exatamente do desejo de contar histórias. Dito de outra forma, cabe imaginar que as formas à beira da dissolução, o inacabado que distingue essas telas, constituam o recurso encontrado pela artista para contar suas histórias da maneira que lhe parece mais adequada (ou, de acordo com os mais fervorosos teóricos da pós-modernidade, a única maneira ainda possível). Se aceitarmos essa interpretação, eis que o estilo tão pessoal dessas pinturas deixa de ser apenas um capricho, uma solução meramente estética, para tornar-se uma escolha quase ontológica, uma declaração de poética. Os personagens que a artista nos apresenta não emergiram do magma de cor apenas para preencher as telas ou para transformar uma vocação abstracionista em figuração: pelo contrário, cada elemento representado tem uma função a cumprir, contribuindo para o equilíbrio do conjunto. O cerne dessas pinturas não deve ser buscado (ou não exclusivamente) no embate entre figuração e abstração, mas sim nas histórias que contam e, mais ainda, na maneira como elas são contadas.

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