Viva a cor
Agnaldo Farias - 2009

Desta vez a proposta de Amelia Toledo é que o visitante atravesse a cor, se deixe envolver por ela, vivendo-a, uma das muitas possibilidades oferecidas por sua obra, extensa e perturbadoramente multifacetada, resultado de uma trajetória infatigável tanto horizontal quanto verticalmente. Mas nela a cor, convenha-se, quase sempre foi protagonista. E, coerente com seu gosto pela matéria, por sua convocação ao tátil, a cor em Amelia Toledo quase sempre vem incorporada, nunca um elemento atmosférico, intangível, como uma qualidade do ar. Amelia, no geral, prefere explicitar a fonte da cor, seja ela uma pedra, um fragmento de tecido, um filme projetado sobre espelhos ou sobre o corpo dos visitantes. Suas pinturas, esculturas, objetos, vídeos, instalações, intervenções públicas, não são coisa que se resolvam à distância. Há que travar contato com ela, roçá-las, senti-las na pele, como na vida.

À direita de quem entra na Galeria Nara Roesler, a artista posicionou algumas pinturas da série “Horizontes”, todas divididas em dois planos, duas cores que se encontram de modo semelhante ao céu e a terra, ao céu e o mar. Duas cores que, além de tingir nosso olhar, graças `a linha horizontal que as separa, levam-no para os lados, para fora dos seus limites físicos, o que serve como lição para o caráter expansivo da arte, da experiência que somente ela pode nos propiciar. Mas alguma coisa acontece no processo de contemplação dessas pinturas: elas como que emitem um barulhozinho (é sempre assim, com as pinturas de Amelia Toledo). Aproximamo-nos para então perceber que elas são feitas sobre tecido grosso de linho. Sentimo-las respirar sobre a trama grossa em que a cor vem montada.

A experiência prossegue em toda a sala/corredor que acontece à esquerda de quem entra. E aqui já não temos coisa de se ver, apenas, mas de penetrar com o corpo, atravessar e afastar as faixas de tecido tingido de laranjas, amarelos e terras suspensas do teto. A trama vai variando no ritmo em que se caminha pela obra, as tonalidades vão se fechando em soluções mais ou menos claras e escuras, sempre cambiantes, sempre trocando com o nosso movimento, a menos que se resolva parar, saboreando, por um momento, a suspensão num mundo exclusivamente sol.

Depois a chegada no salão principal da galeria: o apogeu da cor. Porque como não se pode mesmo colorir o mundo, refiro-me ao mundo das cidades, onde as cores comparecem laconicamente, parecendo até que preferiram nos abandonar, Amelia Toledo criou um grande centro de irradiação cromática. À direita, como a intensificar a ração de laranja, ela dispôs um conjunto álacre de pinturas amarelas e laranjas da série “Campos de cor”. Pinturas quadradas ou retangulares de tamanhos diversos, que se vão juntando umas às outras, em sequência alinhada pela extremidade superior, como uma procissão desencontrada. Todas elas produzidas sobre o mesmo tecido rústico, cada uma delas um palco onde se nota uma cacofonia de pinceladas ágeis, sincopadas como as pegadas de uma dança suavemente frenética, gestos rápidos em celebração pela cor escolhida. Se à direita as cores predominantes são o amarelo e o laranja, na parede da esquerda, `a maneira de um contracanto, chegam-nos as telas da mesma série, “Campos de cor”, roxas, azuis e verdes. Ao alto, no meio dessa tensão entre cores quentes e frias, irradiantes e sóbrias, estridentes e rumorosas, um espaço cúbico preenchido por faixas de juta presas no forro, todas plenas e compactamente azuis. Uma tentativa bem lograda de fazer com que nos afoguemos na cor azul, situada no vértice das sendas percorridas, de um lado, por Yves Klein, o artista que patenteou o azul profundo, e, de outro, o poeta Carlos Pena Filho, o poeta do azul. O azul se expande para o páteo da galeria com a obra “Labirinto de Azul”. Refugiado no interior dessa construção cósmica proposta por Amelia Toledo, o visitante perceberá que o azul, cor íntima e calma e profunda, é, como o céu, uma espécie de maré inicial de todas as outras cores.

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