Tecnologia e arte
Abraham Palatnik - 1984

A tecnologia é um fenômeno novo. Tem características dinâmicas, evolui sempre e certamente não foi inventada pelo homem.
A existência no universo de formas tão diversas, orgânicas ou inorgânicas, simples ou complexas, é intrigante. Alguma tecnologia foi acionada para que estas formas assumissem tal aspecto.

A evolução das formas no universo ocorre de maneira espontânea, e seu processo está inserido no padrão responsável pelo aperfeiçoamento das estruturas vivas e independente de participação consciente.

A tecnologia na evolução do homem adquire significado e está em evidência na medida em que ela permite aos sentidos um acesso consciente à mecânica das forças naturais.

Podemos considerar a evolução do homem decorrente dos mecanismos naturais de que é dotado para perceber, identificar, classificar, armazenar e dos mecanismos artificiais - extensões – enfim, de tecnologia e informações.
O natural e o artificial convivem e se completam. São, portanto, componentes vitais de nossa cultura. Este fato, no entanto, não é gratuito nem fácil. O homem não nasce pronto. Leva a vida aprendendo. Sua sobrevivência dependerá da tecnologia cuja função é resolver os seus problemas cada vez mais complexos e promover sua integração no meio em que vive.

O estudo é o componente artificial codificado e implantado em nossa cérebro. Esse conhecimento pode ser implantado em nossas extensões. Para que a extensão saiba, terá que ser informada. Assim, se eu entro no elevador e falo português nada acontecerá. Mas se eu quiser subir para o terceiro andar tenho que falar em elevadores. O dedo aperta o número três e pronto.

Estamos condicionados a ver as coisas por intermédio de explicações, descrições e teorias. Confiamos naquilo que está escrito ou naquilo que é traduzível em palavras. Tudo, enfim, codificado. Desativamos o mecanismo que possuímos para perceber por conta própria, submetendo-nos à percepção através dos códigos. Como corrigir esta situação? Estimulando e desenvolvendo os mecanismos que possuímos para perceber tudo que nos cerca e fazendo sentir nossa presença.
Pela arte?. Sim, mas, também, pela ciência e pela tecnologia.

As informações estão inseridas nos diversos aspectos da forma como contorno, padrão, sequência, estrutura, forma musical, abstrata, matemática, geométrica, forma de pensamento etc. Na realidade, artistas e cientistas podem facilmente observar que na ordem universal da qual o homem faz parte, cada forma tem um significado especial, inclusive a desordem, e que não há nada na natureza que seja completamente sem forma, pois se houvesse não poderíamos percebê-la.

A compreensão dos aspectos da forma não apenas no mundo externo, mas também nas raízes inconscientes da atividade humana faria desmanchar a dúvida e a controvérsia que há na relação entre arte, ciência, tecnologia e comunicações.
O subconsciente também é dotado de mecanismos que se ativam espontaneamente e de maneira tão extraordinária que a poderosa ciência ainda não consegue compreender todo o seu processo. Um deles, a intuição, é, sem dúvida, uma das faculdade mais importantes do homem. A evolução tecnológica dependeria em grande parte dessa faculdade, sendo que a atuação da inteligência estaria integrada no processo da intuição.

Um problema complexo funde nossa cuca, mas a solução salta inesperadamente, e, de repente, vemos ordem e lógica em diversos fatos irregulares e no meio da desordem. Fatos científicos importantes têm sido previstos por uma percepção intuitiva.
Sem a intuição, enfim, não teríamos artistas, que nos proporcionam essencialmente o contato com o inesperado. É que chamamos de CRIATIVIDADE.

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