Laura Vinci (São Paulo, 1962). Vive e trabalha em São Paulo.

“Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia; porém nosso dever é edificar como se fosse pedra a areia...”. Jorge Luís Borges

Lidar com estados fugidios, como a areia que escorre por entre os dedos, é do que se ocupa Laura Vinci em sua obra. Esta doa visibilidade para passagens do tempo, mudanças de estado da matéria, nos fazendo ver aquilo que sabemos que existe, mas que por estar em permanente fluxo, fica somente como um saber abstrato, carente de materialidade. Sem estancar, paralisar, mas sim tendo a sutil capacidade de apreender delicadamente o que passa, Laura nos dá olhos para ver o que está em permanente transformação. A areia que se acumula na “Máquina do tempo” doa imanência para o passar das horas – sendo que estas sofrem as intervenções do ambiente, perdendo sua natureza linear; em “Warm White”, resistores elétricos em bacias com água criam uma escultura que é feita do que é sólido, mas também do que se desmancha no ar. O vapor criado pelo encontro do líquido com o calor se mistura ao espaço. Dando a ver o vazio sob um véu tênue. A escultura se expande, toma o espaço, se movimenta. Assim como nós, que caminhamos enquanto a obra nos atravessa.

Jogando com leis da física e da química, a artista busca que enxerguemos o peso das coisas, revelando as marcas deixadas pelos encontros de materiais, um sobre o outro, com o decorrer do tempo. Operações desta natureza fazem da obra de Laura uma espécie de alquimia feita a partir dos diversos estados da natureza. Ao ter como objeto principal aquilo que passa, a artista finda por estar trabalhando com a vida, que não cessa de mudar, operando ciclos de nascimentos, transformações e mortes.

O encontro com estas manifestações nos possibilita experimentar o tempo, nos fazendo lembrar que nós também estamos em permanente movimento. Menos do que um olhar pessimista sobre este passar das horas, há aqui um chamado para uma potência afirmativa. Se com certas obras de Laura “aprendemos a morrer”, ganhamos também, no mesmo momento, a urgência de movimentar o tempo que temos, dizendo sim para os fluxos, sem estancá-los, aprendendo, quem sabe, a edificar cada dia como se fosse pedra, mesmo sabendo que se trata de areia.

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