Furor
Sônia Salzstein - 2010
Aparentemente, o conjunto de pinturas recentes de Antonio Dias mantém-se no rumo tomado pelo artista desde meados da década de 1980. São trabalhos que confirmam procedimentos característicos do que ele iniciava naquele momento: a justaposição de telas de diferentes dimensões, de modo que da articulação de dois ou mais módulos resultam vãos, “vazios”, estes, por sua vez, imantados pela estrutura em grelha da obra (o que sugeria seu prolongamento virtual por todo o espaço); a lida com uma pintura, por assim dizer, ready-made, que prescinde de pincéis e declara ostensivamente seu deslocamento do ambiente do ateliê; uma efervescência de técnicas (ou anti-técnicas) de pintura que não se assenta na maior ou menor plasticidade dos materiais, mas em processos físico-químicos, na evidência objetiva das reações entre elementos minerais, pigmentos e aglutinantes.
Disso tudo geralmente resultou, como também agora, uma pintura que antagoniza o estatuto óptico e a condição vertical do quadro, embora essa pintura sempre devesse se firmar em ambos, de modo obrigatório. O antagonismo se radicaliza e chega a um impasse na produção atual, e nisto reside a relevância dessas telas no debate contemporâneo da pintura - justo no disparate notável entre a ausência de expressividade declarada em cada uma de suas superfícies e a dramaticidade sobressalente, fora de lugar, que elas terão expulsado do quadro e que, se não pode doravante pertencer a ele ou à imagem acidental que dele inevitavelmente se desprende, fica implicada, e de modo tenso, no manejo distanciado e, digamos, “pára-pictórico” dos materiais pictóricos. Essa dramaticidade fora de lugar, de que se tem notícia através da espécie de ritual ensaiado de procedimentos, é, conforme se disse, o que confere enorme interesse e atualidade a esses trabalhos.
Chama a atenção, nesse conjunto de pinturas, o modo ultra-intensificado e às vezes estridente como alguns daqueles procedimentos marcantes na obra de Antonio dos anos 1980-1990 são agora retomados. A grelha, durante tantos anos um elemento, na produção desse artista, alusivo à tradição construtiva, preservada mas acrescida de uma pitada de humor e paródia em suas pinturas dos anos oitenta e noventa, apresenta-se, nos trabalhos recentes, como prestes a arrebentar. Em vez de integrados à antiga “estrutura dedutiva” feita de módulos-partes que teatralizavam um todo, os módulos que compõem os trabalhos demonstram-se, agora, um tanto loquazes; indicam ter adquirido vida própria, como se pudessem a qualquer momento subtrair-se à estrutura em grelha e tomar rumos próprios e caprichosos. Deixaram de ser os elementos anônimos que se regulavam reciprocamente conforme um padrão onisciente; assomam, doravante, como pequenas e salientes unidades autônomas, com potencial para corromper o padrão e solapar-lhe o funcionamento geral. Há um misto de maldade e potência criadora nessas superfícies que já não pertencem inteiramente a uma estrutura.
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