Voar
Marcelo Campos - 2011
A maestrina vestida de vermelho entra, silenciosamente, pelo lado esquerdo do palco. Posiciona-se diante do pentagrama e mergulha na decifração dos diversos conjuntos de cinco linhas que constituem as pautas musicais. Brígida Baltar a observa da plateia. Ali, por entre claves e pequenos círculos o mundo vai se ecoando em ré, lá, dó. Neste momento, os deuses da música são acordados, as musas, seres celestiais, Dionísio, Apolo e as tripas atadas nos cascos da tartaruga ou nos chifres de boi para criar a lira, a harpa de Orfeu. No filme Voar vemos a relação de um sonho, uma utopia emergindo das vozes de um coro ausente, o mesmo que na tragédia grega anunciava e predizia o destino do herói. Assim, a palavra “voar” serve como mote e mantra, repetida, esgarçada, estendida e comprimida para além de toda a aparência reconhecível na composição de Tim Rescala. Esta é a tarefa deste filme, relacionar-se com a aparência, com a figuração, a palavra, os fonemas e, concomitantemente, fazer ecoar o som abstrato, a frase sem sentido, irreconhecível e fantasmática. Sobre todas as coisas, a regente, em dança, em voo, controlando a altitude e a queda das notas. E a artista perscrutando a cena, manipulando-a como num teatro de marionetes. Mas ascensão e ocaso são, para Friedrich Nietzsche, o resumo da vida: alçar o mais alto voo e conhecer as profundezas.
Com isso, Brígida nos apresenta metáforas para a queda, o vôo, o pouso. Em esculturas zoomórficas confere-se ao acontecimento um sentido atual, sem querer raiar com o presente, mas acreditando na possibilidade de usar o mundo indistinto entre objetos e obras de arte. Esculturas zoomórficas e apropriações. Do dadaísmo à pop art, as estratégias de apropriação elevaram o estatuto da citação ao lugar de atualização de discursos, ao mesmo tempo que possibilitaram um elenco ampliado de referências: tiras de reportagem de jornal, objetos industriais, reproduções de obras-primas, instantes atualizados da história nas informações dos noticiários. O uso da apropriação para as esculturas incompletas, ruídas revive as sombras fantasmáticas da história. Ao mesmo tempo, exercita-se um elogio à antimanufatura como possibilidade de criação. Está pronto, está feito. São obras e artefatos. As heranças não são mais indesejadas. Ao contrário, são ampliadas as suas redes de significado. Não se busca a história literal, que liga imagem e mito, mas, antes, ativa-se o bricabraque de uma espécie de montagem. A estratégia é deixá-las mais aladas. O estilo art nouveau dotou a indústria de naturezas e metamorfoses zoomórficas: mobiliários com pés de animais, braços de poltronas com decorações de flores e folhas de acanto. Isso tudo amolecendo metais, pontes, torres. Aqui se observam as extensões dos objetos em dispositivos que os tornem natureza. A arte serve como comentário da arte.
A criança no balanço percebe a impossibilidade do voo e ainda assim aceita o ensaio, o quase, acredita nas máquinas de voar. Sabe-se apartada da natureza, das asas do pássaro. Gosta da velocidade. Está acostumada a buscar gangorras, escorregas, rodas-gigantes. E o ato de rodar presentifica o ritual, como mímica religiosa. Alegria de viver!, declarara Matisse, em roda, nu. Resta-nos ascensores e dualidade entre elevação e queda. O corpo ganha uma das extremidades da máquina criando a ilusão do voo. Liberados do chão, percebe-se o torpor da luz que clareia o céu antes do nascer do sol. O lustre, a luz artificial, o tilintar dos cristais, o mundo como encenação. Depois, o zênite, o meio-dia, faz brilhar tão intensa a realidade, numa luminosidade que não nos deixa enxergar. O mundo se revela sem sombras, sem simulacros. O que é preciso para voar é a frase primeira que traz à exposição de Brígida Baltar toda esta complexidade. Lida-se com música, encenação, teatro, dança, acrobacias, colagens de materiais e métodos. Deixa-se o signo circular, como nos alertara Rosalind Krauss sobre os papéis colados de Picasso, mas ajudado, aqui, por próteses aladas.
E Brígida olha a cena, como na poesia de Fernando Pessoa: “Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu”.
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