sutapa biswas

Textos críticos:

sutapa biswas
Michael Asbury - 2008
A questão do tempo na obra de Sutapa Biswas
Michael Asbury - 2008

As obras de Sutapa Biswas aqui recolhidas, por mais ecléticas que pareçam, possuem características comuns ligadas às temáticas que a artista desenvolve ao longo dos anos. Entre elas, está a questão do tempo, seja o tempo inextricavelmente ligado a tudo que é cinemático, seja o tempo subjetivo, a memória, a saudade produzida pelo deslocamento, pela morte dos queridos ou a experiência materna de perda, o gradual distanciamento entre mãe e filho. É através de tal subjetividade que podemos entender a coerência entre sua pintura ou desenhos, e seus filmes. Outro fio condutor na obra é a referência à história da arte que, afinal, é outra maneira de se abordar a questão do tempo.

A experiência íntima, subjetiva, feminina é, desse modo, sobreposta ao estudo histórico, tradicional território eurocêntrico e masculino. Essa dinâmica referencial empresta ao trabalho um caráter crítico, criando um sentido de instabilidade na sua apreensão. Podemos ver, em seu vídeo The Trials and Tribulations of Mickey Baker (1997), por exemplo, como esse processo opera através de certas inversões. O crítico inglês Guy Brett já havia notado que nesse trabalho há uma aparente contradição entre a mídia do filme, caracterizada pela captura, ou melhor, pela ilusão do movimento, e o quase estático objeto filmado: um homem de meia idade, nu, olhando pela janela.

Podemos identificar outra inversão estabelecida aqui. Os sapatos no chão estão dispostos de maneira que um se apóia levemente sobre o outro e, portanto, indicam claramente que se trata de uma referência ao quadro de Edward Hopper A Woman in the Sun (1961). Os próprios sapatos já fazem parte do processo de inversão, sendo masculinos, e a sobreposição se dá pela ponta, ao invés de pelos saltos. As duas composições estão como que espelhadas, a mulher no quadro de Hopper olha para a direita, enquanto o homem no vídeo de Biswas, para a esquerda. Há, portanto, uma crítica frente à tradicional relação do artista com sua modelo que, sem dúvida, tem origens na formação da artista e no contato com teóricas como Griselda Pollock. Biswas, entretanto, nunca se restringe a um posicionamento crítico singular, não podemos defini-la simplesmente como uma artista feminista. As referências históricas operam de maneiras distintas nos seus diversos trabalhos. Tal é o caso de Birdsong (2004), filme projetado em tela dupla, obra complexa que sobrepõe fontes variadas e oferece múltiplas leituras. É importante notar que, neste caso, a artista insiste em constatar a equivalência de sua preocupação formal, estética, com outros aspectos como a experiência materna e as citações históricas. Em entrevista concedida ao autor, Biswas afirma ter dedicado “um tempo considerável à procura do tipo de aparência estética” desejado para esse filme. Na sua descrição das origens do trabalho, vemos como as referências históricas, conceituais assim como estéticas, se entrelaçam: Para começar, o ponto de partida desta peça foi uma conversa entre mim e meu filho, que aos dezoito meses de idade pronunciou sua primeira frase, na qual manifestava seu desejo de ter um cavalo morando conosco na sala de estar. Essa idéia me levou de volta a um quadro do pintor inglês de paisagens George Stubbs, intitulada Lord Holland and Lord Albermate Shooting at Goodwood [Lorde Holland e lorde Albermate atirando em Goodwood], de 1789, na qual vemos um empregado negro cuidando dos cavalos enquanto seus patrões se divertem. As palavras de meu filho me surpreenderam por várias razões, não apenas porque para uma criança de sua idade não há distinções entre a realidade e o imaginário, mas também porque, para ele, essa idéia não era improvável tampouco impossível.

Assim, quando fiz Birdsong, procurei criar um tipo de interior que ecoasse um clima de passado colonial com a palheta que Stubbs usava em sua pintura. Fui muito específica, a ponto de procurar um mobiliário de época autêntico que conviesse ao contexto dessa casa em estilo colonial. Para ajudar-me na escolha de uma palheta, recorri aos cartões de amostra de cores classificadas pelo English Heritage [Patrimônio Histórico inglês], cujas gamas tonais remetem às cores utilizadas em interiores e edifícios históricos. Foi também fundamental para mim o fato de, perdendo-me por entre tantas lojas de adereços, eu ter podido encontrar os próprios objetos utilizados pelo English Heritage nas fotografias publicitárias de suas amostras de cores, e alguns desses objetos estão presentes nos planos da casa, na obra Birdsong. A pintura da sala no “verde-ervilha” do catálogo de cores do Heritage fazia referência também a um poema de Edward Lear, que escreveu um conto sobre o improvável casamento entre “a coruja e o gatinho” que singrou os mares a bordo de um belo barco verde-ervilha. Então, no contexto do filme em minha instalação, a referência à diáspora e à história está implícita. O que o próprio filme em sua forma editada procura atingir é bem mais do que isso. Birdsong é “emoldurado” pela figura mitológica do cavalo-alado, feito em papel dobrado, ou origami, que gira em torno do barbante que o suspende. Segundo Laura Mulvey, a figura mítica de pégaso opera neste filme em diversas maneiras.

Num sentido formal, seu movimento evoca o tempo do filme, como se fosse um metrônomo. Esse ritmo tem, por sua vez, uma função simbólica que marca o incremento no grau de separação entre mãe e filho. O pégaso é, afinal, um meio de transporte, oferece a possibilidade de evasão, que no filme nos leva do real ao imaginário, ao mesmo tempo em que incorpora o sentido de ansiedade materna de perda. A questão do vôo é, portanto, crucial, não só neste filme específico, mas também através da obra como um todo. Explica a temática recorrente dos pássaros no trabalho da artista, seja nos títulos, como no caso de Birdsong, ou nos seus desenhos, pinturas e esculturas. Segundo a artista, há muitas razões para isso, mas as mais determinantes são relativas a memórias de sua infância e do seu deslocamento da Índia para o Reino Unido, aos quatro anos de idade. São associados, dessa maneira, à questão migratória, à temporalidade das estações do ano, assim como à memória das idas e vindas do pai que viajava muito em função de seu trabalho em agências de desenvolvimento. Notamos, então, que as citações que seus filmes fazem à história da pintura operam também em sentido inverso. A pintura e os desenhos de Biswas buscam igualmente um diálogo com o cinema, onde a questão do tempo se dobra de forma semelhante entre o mecânico e o subjetivo: Eu comecei a desenhar pássaros para demarcar o tempo. Um pássaro por dia, como os spot-paintings de Damien Hirst, uma pintura por dia. Os pássaros que eu pintava não estão tranqüilos. Se você olhar para eles por certo tempo, eles deixam de ser belos para se mostrarem assustados ou mesmo ameaçadores, como são os pássaros reais. A referência a Hitchcock é imediata.

Brett, G. “Spaces Inside Time”, in: Campbel, S. (Org.), Sutapa Biswas, catálogo de exposição, Institute of International Visual Arts (inIVA) & Douglas F. Cooley Memorial Art Gallery, London & Portland, Oregon, 2004, p. 42. Esta relação é também relatada na entrevista que a artista concedeu a Stephanie Snyder. Ibid., p. 8. Sutapa Biswas entrevistada por Michael Asbury, in: Asbury, Bueno, Ferreira & Machado (Orgs.), Revista Arte & Ensaios, n. 14, Edição Especial “Transnational Correspondence”, PPGAV-UFRJ, Rio de Janeiro, 2007, p. 21. Ibid. Mulvey, L. “Birdsong”, in: Sutapa Biswas, op. cit., pp. 52-53. Sutapa Biswas entrevistada por Michael Asbury, op. cit., p. 13.

desenvolvido por