Missão beleza
Christoph Tannert - 2010
(texto realizado em 2007)
Na arte, muitas vezes nos sentimos como se estivéssemos em um jardim paradisíaco. A pós-modernidade super-estetizante consegue expressar justamente os seus discursos oscilantes e pluralistas apenas por meio de “floreios”. Do ponto de vista da metalinguagem, a primavera é „floristicamente“ mais bonita, quando o jardineiro percebe florescer aquilo que jamais esperava. Nesse contexto, não há suavidade que baste para retratar o objeto e para amolecer o radicalismo da liberdade e do super-ego. Edouard Manet, Vincent van Gogh, Georgia O’Keeffe, Andy Warhol, Jeff Koons, entre outros, lograram fazê-lo.
Se nos escanogramas de Luzia Simons se constrói nobreza sobre altas hastes, se a beleza ainda vive por um curto espaço de tempo no pathos de sua efemeridade, cresce o reconhecimento de que o anseio pela felicidade precisará ficar restrito apenas ao próprio anseio e que a morte exige o seu quinhão. Quer parecer que essas imagens seriam parte de um rito de anseio nostálgico, através do qual deverá ser suspensa a efemeridade, mas que essas imagens enquanto peças móveis com perspectiva em profundidade, estranhamente cimentam o efêmero.
Aqui, uma tulipa no momento em que abre sua flor, auratizando a sua substância de anseio nostálgico, sorvendo-nos para dentro de um átimo de tempo fantástico, num turbilhão de acontecimentos diante da escuridão do fundo, difícil de absorver de imediato, deixando o observador levemente aturdido olhando para fora do canteiro. Acolá, arrebatamentos de pétalas, que, aliás, Luzia Simons não vai buscar em um repositório de imagens, mas transfere diretamente do vaso para o scanner, nos mostra o drama secreto que transcorre na natureza: a luta de morte, secreta, sob a bela superfície, que faz com que as frutas apodreçam no prato ou as flores murchem.
Trata-se do pathos da efemeridade, que domina cada uma dessas imagens de Luzia Simons, do luto pela beleza já perdida, apesar de toda a aparente exuberância, constituindo um hino a Eros e Tanatos.
Temos de adaptar aos ambientes os nossos desejos de idílio, observando que as verdadeiras catástrofes sempre transcorrem às escondidas.
Flores não podem florir em beleza eterna. A beleza eternizada, que Luzia Simons busca implantar em suas imagens, contra o tempo que passa, é um relato da atração que exerce a efemeridade da vida, assim como da delicadeza e da eufonia que florescem a partir do nada e que ao nada retornam. A memória torna-se uma categoria que move a arte. Ela explicitamente torna-se sujet.
Incomuns em seu efeito claro-escuro, de concepção barroca mesmo, os escanogramas de Luzia Simons parecem reverenciar as imagens de Francisco de Zurbarán, com a tênue diferença de que a existência das tulipas colocadas sobre o scanner tem uma sonoridade trazida do silêncio para o rumor barulhento da metrópole, voltando depois ao silêncio. É por isso também que a encenação da exposição de Luzia Simons no Estúdio 2 do Künstlerhaus Bethanien, complementada por instalações de piso com doces turcos (lokum), atinge um grau máximo de calma, apresentando apenas poucas obras pontuais nas paredes.
Devido à sua filiação ao inaudito, as imagens da artista embutem uma esfera de retração silenciosa, algo extra-ordinário, a cujo potencial energético p.ex. Friedrich Hölderlin se refere em seu Hipérion, quando vislumbrava no mais belo também o mais sagrado.
Muitas vezes atribui-se vaidade àqueles cuja missão é a beleza. Mas apenas aquele que acreditar na beleza da natureza conseguirá adorar flores.
Vários artistas e estudiosos da arte do século XX ressaltaram que o pendor para o belo era uma tendência implícita da arte. Herbert Marcuse encerrou uma palestra com a seguinte frase, em tradução livre: "Aquele que recusa o belo na arte, é reacionário no sentido objetivo"(1). Trata-se de nos atermos à autonomia de categorias estéticas, até mesmo quando determinadas obras de arte as negam. De fato, a arte oscila de ponta a ponta entre a bela aparência e sua contestação. No entanto, trata-se de diferenciar entre a beleza que surge pela forma estética, portanto também na apresentação do feio, e a beleza buscada ostensivamente enquanto tal, ou seja, enquanto afeto no observador.
Se Barnett Newman vê o impulso da arte moderna no desejo de destruir a beleza, então Luzia Simons pertence a uma facção de artistas que não segue o ductus da negação radical. Reconhecimento e ampliação da percepção são vistos por ela num „renouveau“ (no sentido usado por Jean Clair), no renascimento de categorias estéticas que o vanguardismo combatia. Com a redescoberta e a revalorização do barroco, articula-se em suas imagens um interesse ao mesmo tempo novo e antigo pela beleza e pela sublimidade, ou seja, por termos opostos à estética radical de vanguarda que preconiza subversão e da negação: o espírito da negação, portanto, converte-se, voltando-se para o positivo.
Luzia Simons recusa-se a aceitar o presente como se aceita uma tempestade de neve. Suas imagens, objetivando hedonisticamente o agora, pleiteiam com ênfase estética a realização do belo e do verdadeiro no instante mesmo, favorizando um "paradise now".
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