Metal líquido
Paulo Venancio Filho - 2010
Uma rigidez fluida, imponderável, domina o espaço com a imponência do fenômeno natural – com a natureza é preciso competir em escala. Mas aquilo que é móvel e determina o tempo, onde as coisas nunca são o que já foram, está imóvel – uma máquina travada, reduzida à expectativa de uma ação, em suspense, à espera de um start para colocá-la em movimento.
As esculturas de Artur Lescher sempre estiveram em busca de situações espaciais fronteiriças onde querem ser apenas sutis intercessões no espaço. A predileção é por objetos inteiriços; gosta de submetê-los à força da gravidade, suspendendo-os, evidenciando o peso e também delineando claramente os limites. E é nesses limites, nas bordas finas e pontiagudas, que busca provocar uma tensão imprevista e pouco usual: o equilíbrio se dá sempre pelo ponto mais improvável, até no menor ponto possível. O fato de os objetos serem quase sempre de madeira ou metal mostra já um tipo de escolha: ou material da natureza, ou material da máquina. Entre natureza e cultura, na transfiguração de uma na outra, está este trabalho: Rio máquina. De fato, se máquina implica movimento, os rios estão entre as grandes máquinas da natureza. A natureza esconde seu mecanismo,seus componentes: um rio é indivisível, único, inteiriço. Tem também algo de hipnótico, impõe um estado de contemplação, de entrega diante daquilo que passa simplesmente – do que passa e não volta. Um rio pode nos absorver por horas, é o lugar onde se percebe o tempo passar, a perfeita interação entre matéria, espaço, tempo. Toda obra de arte aspira a um poder dessa ordem, conduzir a uma completa e total absorção. A dimensão monumental procura se acercar do fenômeno natural, o efeito moiré da malha de aço dos reflexos cambiantes da água. Digamos que a ascese minimal aqui não se completa totalmente na aparência industrial, e as sugestões de natureza ainda refletem uma presença outra, física e natural, ainda que metafórica, e isso não é um dado exclusivo, entre nós, do trabalho de Artur Lescher. As coisas sensíveis, da natureza e da cultura, podem ainda se sugestionar no terreno amplo da abstração.
As articulações mínimas da malha de aço, rígida e também flexível, supõem uma esteira contínua, uniforme, indivisível, que posta em movimento permanecerá sempre assim. De certo modo a malha representa uma solução de continuidade para os “desenhos no espaço” que Lescher vinha realizando. “Desenhos” que eram esculturas dobráveis que formavam uma sequência linear de articulações. Como se as articulações procurassem compensar a rigidez dos materiais (metal ou madeira) e os transformassem em linhas dobráveis, moldáveis e maleáveis, potencialmente manipuláveis.
O equilíbrio de lâminas, pelas bordas, no ponto de menor contato, a estabilidade arriscada e o repouso de objetos pontiagudos em momentos de suspensão ou mal tocando o solo na ponta de uma agulha, mostram um processo em que a escultura quer contrariar ou suspender suas propriedades de peso, estabilidade, autossustentação etc. sem abdicar do peso, estabilidade, autossustentação etc., o que muitas vezes leva a pensar que a escultura está numa posição invertida.
Nunca, creio eu, uma escultura de Lescher atingiu as dimensões de Rio máquina. Lescher chama Rio máquina de desenho. Se for assim, é o desenho mais pesado do mundo. Nunca, em seu trabalho, a sugestão de mobilidade esteve associada a uma estrutura tão pesada. Sem dúvida uma coisa está ligada à outra. Na aparência, Rio máquina é tão fascinante quanto assustadora, não se sabe exatamente que forças pode desencadear. Diante de nossos olhos tudo parece se mover na superfície metálica e brilhante, e ao mesmo tempo sentimos sua presença potente e esmagadora. Duas dimensões, natureza e cultura, que parecem chegar ao limite. Se é assim, trata-se de um retrato fiel do mundo: cada vez mais móvel e também cada vez mais imovível.
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