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Textos críticos:

Gabriel Borba - 2008
Agnaldo Farias - 2001
Boi e a cidade
Gabriel Borba - 2008

Por exemplo, Van Gogh tem sabor de pão. Claro, para quem já apreciou pães. Claro, também, que é opinião subjetiva. O Boi, a seu modo, acha que tem sabor de batata. Faz sentido. Entre as primeiras pinturas de Van Gogh, figura “Comedores de Batata”. E há uma relação entre os comedores de batata e a picturalidade daquela cena. Algo que se encontra além do “clima” em que se dá e da cena, propriamente dita. É ai que reside a unidade poética da obra, envolvendo todos os componentes, da motivação ao sentido, ou do sentido à motivação, já que essas coisas surgem juntas, nascendo e configurando-se na composição.
Sua obra posterior é outra figura e não é por ter, por vezes, trigais como tema que alude ao sabor de pão. Menos ainda porque Van Gogh teria sido padeiro ou apreciador de pães, o que pode ou não ser um fato. Tanto faz, já que o “sabor de pão” é trazido por aquele que vê. O fato de ter sido ele, como se diz, um homem torturado, impregnou sua pintura de urgências e exaltações, figurando, algumas vezes, cenas angustiantes e contaminando sua pintura, quase sempre, com um “que” dessa angústia. No entanto não se conhece apreciador que tenha ficado angustiado diante de sua obra se não tiver, já, trazido a angustia em seu espírito. Não é isso que ilumina a propriedade e a beleza do que fez. Ter sabor de pão, ou do que se queira, é uma chave para penetrar as sensações que porta e transmite. É disso que se trata.

Ao entrar no ateliê do Boi, com a coleção “Posição do Artista” preparada para exposição e pendurada pelas paredes, uma sensação fortemente intrigante e prazerosa ataca a visita. Enlevado, o visitante busca uma explicação, inexplicável contudo. Vermelhos e azuis derivando profusão de violetas, inscritos em uma única forma, retângulos e o que sobra deles no modo como se espalham sobre as telas, vão buscar, lá dentro de quem vê, aquilo que já está, de algum modo, alojado. Urge recapturar e ressuscitar esse interior, qualificando-o no universo da beleza. Acaba por ser uma festa, na qual se é o convidado central, senão único. Encontrar um sabor que identifique a presença mútua, pintura e visitante, é recurso válido para a experiência, já que sabor é propriedade que une pessoas a coisas e as qualificam. Interessa notar que a coisa, uma vez qualificada deixa de ser coisa e torna-se objeto. No caso do objeto de arte, algum cuidado é necessário pois mascara um autor e é a ele que se busca. Uma relação que não é de pessoa com coisa mas de pessoa com pessoa. Diz-se, por isso mesmo, “quisera ter um Van Gogh!”, “quisera ter um Boi!”

A posição do artista

E Boi, nessa coleção, tem sabor de vinho. Não pela profusão dos vermelhos e dos violetas que, verdade, remetem ao cálice de vinho e ao reflexo jogado sobre a toalha branca da mesa posta que o acompanha. Mas pelo gosto que se tem ao estar com essas pinturas que fazem uma família na qual cada quadro tem sua personalidade. Cada qual com seu sabor, no plano do sabor geral do conjunto.

Sabor conferido não só às cores e à sua disposição, mas, também aos modos com óleo e pincel e, sobretudo, ao olhar. Olhar do pintor e de quem olha, este completamente dominado por aquele. A dizer, a beleza que se impõe já esta naquele que olha, clamada pelo pintor. E o sabor que se confere é a qualidade agregada a cada quadro, todos iguais em um sentido e individuas em seus sabores independentes tal qual vinhos. É um exercício e tanto visitar essa mostra com tal suposição.

Mas, outras injunções permeiam essa pintura. Quem conhece a obra do Boi há de ter notado que o cenário que o envolve marca o caminho em que transita. Já pintou figuras, dedicou-se à paisagem natural, abstraindo, por vezes sem, no entanto, distanciar-se do cenário e, finalmente, resolve-se com repertório mínimo de figuras geométricas, no caso dessa nova coleção, exclusivamente retângulos. É, confessadamente, o cenário em que está alojado: a paisagem urbana.

Imerso na cidade, transitando por ela a partir do seu ateliê, reconstitui o cenário como deve, tomando dele formatos básicos -quarteirões; becos; “sky lines”- ora maquetes, ora vistas e elevações, reconstituindo volumes, planos sucessivos em profundidade exclusivamente com suas duas cores azul e vermelho e seus derivados violetas, longe da perspectiva linear de horizonte e ponto de fuga. O horizonte aqui, aliás, é de outra natureza, particular e subjetiva, metafísica mesmo, no dizer do pintor.

Se De Chirico construiu ares metafísicos para a sua cidade exaltando as qualidades da perspectiva linear, Boi o faz exclusivamente pela disposição e variação de matizes, divergindo das leis da perspectiva linear, muito próximo da “Perspectiva Invertida” descrita por Pável Florensk (1882-1937) que aproxima substancialmente o observador da figura em modo subjetivo. Saboroso por assim dizer. Despido das regras forjadas pelos pintores de antes e independente de abstratos de agora, o que marca a posição do artista diante das imposições muitas vezes conflituosas de estar na cidade, de estar no circuito da cultura.

É uma posição: a eleição do sabor em oposição à visada direta e unívoca da cena urbana, igualmente válida, que se impõe como real.

A inclinação do Boi por esse tema, “posição do artista”, está inscrita em dicas que se podem extrair dos títulos que o apoiaram na pintura de cada tela. São elas Composição; Transposição; Suposição; Reposição; Proposição; Exposição; Disposição; Aposição. Dicas do universo da pintura que identificam o sabor de cada tela em sua particularidade, dentro de um conjunto sólido, o da “posição do artista”, tal como bons vinhos, dos quais se assemelham em sabor, que nomeiam em seus rótulos o “blend” de onde se originam, sem perder a distinção “bons vinhos”.

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