Pai
Camila Gonzatto - 2009
Fundação Iberê Camargo
Karin Lambrecht é uma artista de destaque no cenário contemporâneo brasileiro. Participa de exposições desde o final de década de 70. Em 1984, participou da exposição Como vai você geração 80. Em 2002, ganhou sala especial na Bienal de São Paulo. Até hoje, participou de diversas exposições coletivas e realizou mais de dez individuais. Nascida em Porto Alegre, Karin trabalha com pintura e gravura e, a partir da década de 1990, incorpora a sua pintura elementos orgânicos como terra e sangue de animais.
Como surgiu a proposta de viagem a Israel? Qual a idéia geral que norteia o projeto?
Sempre considero mais de um fator que vai me ajudar devagarinho a realizar um trabalho novo. Eu trabalho com a matéria e também com a memória. Neste caso, dentro da seqüência dos meus trabalhos com o sangue derradeiro de carneiros abatidos para o consumo doméstico da carne ovina, vi e suspeitava que o modo com o qual o gaúcho – o homem do campo – lida aqui é semelhante ao modo judaico: é o modo que abate os ovinos por sangramento. Por isso, seria inevitável um dia viajar para Israel e especificamente a Jerusalém e verificar a origem deste universo.
O meu trabalho trata de uma reunião de elementos, que lembra um inventário restaurador de memórias ancestrais. Memórias que eu imaginava estarem lá e aqui, tão longe do lugar de origem, e que estão esmaecidas nas lembranças. O corpo animal é também o mesmo corpo como o meu e o teu e de todos. Neste trabalho, que apresento Pai, destrinchei a genealogia de Jesus conforme Lucas ( São Lucas) e contei 77 gerações.
Também gostaria de ressaltar que o trabalho Pai segue um ritmo, como um mantra e como as camadas na pintura.
Como este trabalho se relaciona na tua carreira com os outros projetos realizados com sangue?
Os trabalhos que realizei até hoje recolhendo o sangue do abate de carneiros (ou ovelhas), especificamente em lugares escolhidos a priori e sempre muito isolados, geralmente lugares muito simples onde, às vezes nem havia luz elétrica, nunca foram fáceis, porque exigem que haja confiança dos peões em mim. Quando eles realizam o abate, precisam estar à vontade e aceitar a minha presença. Eu nunca interferi no método do oficio deles. O meu trabalho tem que estar nos “conformes éticos ”aos olhos do abatedor para que eu possa estar presente junto a eles. É um momento horrível. Sei de antemão o que será visto, a morte de um carneiro, os sofrimentos do animal sendo abatido de um só golpe de faca. Creio que o trabalho que apresento contém a memória destes fatos, porém é uma memória invisível ao olhar, mas esta lá. Igualmente ela está contida no trabalho Pai. Eu considero a mancha de sangue como uma sombra da matéria, algo como uma tensão contínua da existência orgânica gerando constantemente um conflito entre corpo e espírito.
Gostaria que tu contasses um pouco da tua experiência em Israel, falando sobre como eles viram o teu trabalho lá e como foi o entendimento do teu trabalho.
Quando penso comparativamente entre aqui e lá, diria que assim como para nós no Brasil a memória é sempre preferivelmente violada, em Israel, ao contrário, a memória é respeitada. O meu trabalho Pai é uma linhagem de nomes masculinos e mergulha no passado distante, convergindo para um imaginado início coletivo.
Na entrada do Museu de Israel, vê-se na parede uma linha histórica de quantas invasões e dominações Jerusalém sofreu. A cidade já foi considerada o centro do mundo nos mapas antigos e também vê-se uma maquete enorme no pátio do museu como era Jerusalém Antiga. Teria que dar aqui uma verdadeira aula de história antiga, é algo bem complexo, emociona e faz sentido. A religião em Israel, ouso dizer, é integrada na cultura do dia a dia.
Quando, por exemplo, eu pensava na Sarça Ardente antes da viajem, era difícil imaginar como a coisa se deu. Mas estando lá, sentindo na pele a “ardência” no olhar causada pela incidência da própria luz que impressiona, a secura causada na boca pelo deserto, entende-se que só naquelas condições climáticas poderia existir uma visão antiga tão forte. Na nossa sociedade, abolimos totalmente o mundo dos sinais, o mundo intuitivo, tudo que foge ao controle fica excluído ao renegado universo da loucura.
Quanto à compreensão principalmente da fotógrafa em relação ao meu trabalho e ao que fui fazer lá, posso dizer que ela foi se dando passo a passo, primeiramente através de e-mails, e finalmente, ao vivo, quando chegou o dia. Havia muita ansiedade minha e dela. É um trabalho duro.
E como foi o processo de trabalho de vocês?
Yael Engelhart, 27 anos, é uma fotógrafa maravilhosa, uma jovem mulher com uma enorme experiência de vida. Em Israel, as mulheres têm que servir dois anos no exército; depois disso, ela cursou a Universidade, além de já ter vivido em Londres e viajado para diversos outros países, sempre fotografando e documentando a realidade ao seu redor.
Neste trabalho, ela contou com a presença de seu assistente, porque ela previu como seriam complicadas as circunstâncias do meu trabalho, já que é difícil a permissão de estranhos no local, onde o rabino estaria presente. Yael contou com o envolvimento e a ajuda da própria família. Sua mãe e seu pai fizeram contatos antes da minha chegada. Sem eles teria sido impossível realizar aquilo que fui buscar lá. Yael na liderança dessa busca de nossa pequena missão, dirigiu em torno de 600 km. Saímos do hotel de madrugada e retornamos à noite. Passamos por Akkon, onde no dia anterior houve graves conflitos, seguimos para o norte de Israel e encontramos o abatedouro em uma pequena comunidade árabe, orientados e apoiados pelo veterinário do primeiro abatedouro que havíamos buscado em Haifa e naquele dia estava fechado por causa dos feriados da semana do Succot.
No meu trabalho, sempre considerei importante a documentação fotográfica. Um dia gostaria de publicar todos os mapas dos lugares por onde passei, as fotografias de documentação, assim como os trabalhos em sua seqüência temporal. Creio que aparecerão vestígios disso que considero fatores antropológicos e ancestrais deste universo a priori próximo ao cosmos.
Um dos teus trabalhos expostos é um diário de viagem com desenhos. Nele, as pessoas podem escrever o nome do pai. Qual a tua intenção com esse caderno?
Considerei que cada visitante da exposição poderia escrever o nome do próprio pai nas páginas como réplica de meu caderno de esboços, no qual desenhei e anotei tudo que vi na minha viajem, muitos momentos. Aqui na sala de exposição ele é uma pausa, porque não é fácil escrever o nome do próprio pai.
Como os teus trabalhos com caligrafias, que também estão expostos, se relacionam com este feito em Israel?
A primeira caligrafia desta genealogia é dos anos 1994 e 1995. Até hoje eu reescrevo a mesma. Isso é algo que me acalma, vai esvaziando a minha cabeça, um automatismo, um ritmo do ato de desenhar, caligrafia como desenho... Eu não sei por ordem quem é pai e filho, mas ali estão muitos, desde Noé, Abraão, Isaque ... muitos nomes de homens de um passado remoto.
Todos os trabalhos reunidos na minha sala são as próprias caligrafias, como pintura e desenho. A ligação com Israel, além do que já mostrei nas questões anteriores, se dá pela minha formação cristã e a cultura judaico-cristã impregna toda a vida ocidental.
Como tu vês a relação do teu trabalho com o das outras artistas da exposição [Lugares Desdobrados, Fundação Iberê Camargo, 2009]?
Sempre considero que quem dá o nexo entre os artistas é a visão do curador. A própria arquitetura da Fundação nos permite ver os trabalhos expostos, sempre com recortes ao fundo de outro artista e, ao mesmo tempo, cada sala preserva o silêncio necessário para cada trabalho. É uma arquitetura aconchegante e bela.
Durante as reuniões de trabalho, alguns detalhes foram resolvidos entre todos. Na primeira reunião, junto a curadora Mônica Zielinsky, Elaine Tedesco e todos os envolvidos na produção da exposição, especificamente dialogando com Lucia Koch, dentro das questões do trabalho dela, acordamos em deixar a minha sala com a luz original do maravilhoso projeto de Siza. É muito difícil iluminar uma pintura sem projetar sombras e na Fundação Iberê Camargo esta preocupação ficou resolvida no projeto do arquiteto: o banho de luz é perfeito; é uma linda e delicada iluminação natural durante o dia e à noite, assim como nos dias nublados, a iluminação é artificial, imitando a luz natural. A intensidade da luz está dentro dos conformes técnicos que protegem as obras e permitem a cor das pinturas estarem verdadeiras.
Estou muito agradecida a curadora e a Fundação Iberê Camargo, que organizou internacionalmente o meu projeto, apoiando as necessidades que viabilizaram a viajem e a realização dos contatos em Israel.
Entrevista realizada por Camila Gonzatto para a Revista Digital do site da
Fundação Iberê Camargo