Caminhos da pintura e o peixe amarelo
Luiz Camillo Osorio - 2008
A pintura de Cristina Canale surge nos anos 80 no Parque Lage, mas será depois de sua ida para Berlim, em meados da década de 90, que ganhará personalidade própria, um estilo singular. Nele, a vocação contemporânea mantém estreito vínculo com a tradição moderna. Este vínculo, ao contrário de lançá-la para fora do seu tempo, derivando para um formalismo vazio e anacrônico, vai comprometê-la com as múltiplas temporalidades que convivem e se enfrentam no presente.
Sua pincelada assume a crença moderna na potência da forma. Diante de suas telas nos surge uma figuração que parece existir por si, independentemente das convenções pictóricas que estruturam o aparecer das coisas. Há uma intensidade plástica que convoca o olhar sem um sentido dado de antemão. Convocação que põe o olho a trabalhar na difícil transformação da mera sensação em sugestão de sentido.
Há familiaridade no que vemos, com cenas casuais, uma temática simples e predominantemente doméstica. Todavia, ela vem marcada por uma intensidade cromática singular e pela sensualidade da própria pincelada. Deleuze em seu livro sobre Francis Bacon, faz uma observação sobre a cor que interessa resgatar aqui: “o colorismo não significa apenas cores que entram em relação (como em toda pintura digna desse nome), mas a cor que é descoberta como a relação variável, a relação diferencial de que depende todo o resto (...) se a cor é perfeita, quer dizer, se suas relações foram desenvolvidas por elas mesmas, você tem tudo, a forma e o fundo, o claro e o escuro”.1 Nestas pinturas de Canale vemos que são as relações de cor que articulam as figuras no espaço, atraindo os corpos, dilatando ou comprimindo as formas, enfim, criando campos de força que mobilizam a nossa percepção. Ressoa aqui uma frase de Paul Klee: “eu e a cor somos um”. Do seu trabalho com as tintas e suas múltiplas possibilidades de tons, luzes, vibrações, texturas, verificadas na superfície da tela, surge uma cumplicidade do olho com a experiência cromática e, a partir daí, com a cena pintada. Um olho que é ao mesmo tempo sensação e produção, que se emociona e se educa no jogo com as cores e as formas.
As figuras aparecem nas pinturas de Cristina Canale como se brotassem na própria tela. Há tanta cumplicidade entre as figuras e o fundo, entre a linha e a cor, que a impressão é de que elas vieram de dentro, como pequenas células que repentinamente germinaram e cresceram na superfície do quadro. É como se a figura fosse surgindo para potencializar campos/massas de cor postos em tensão. Não é tanto um exercício de precisão da linha, mas de contenção e expansão de uma energia cromática. Não me pareceria absurda a hipótese de que, de início, há apenas uma sugestão figurativa, e só na execução da pintura que a artista vai definindo, pela constituição dos campos de cor, quais os elementos que de fato permanecerão na tela.
A presença da figura é um ponto importante para a discussão de seu vínculo com a tradição moderna. Digo isso, na medida em que se tomou a abstração, a partir de uma leitura modernista simplificadora, como recusa da figura. Esta, todavia, não é toda a verdade da pintura moderna. Toda uma vertente expressionista, passando por Giacometti e Francis Bacon, assume a figura, assumindo, concomitantemente, a liberdade do acontecimento pictórico. A linha, a cor, os planos, elementos constituintes da “razão abstrata”, estão na origem de todo processo de figuração. Em vez de tomar a abstração como uma superação da figura, esta é que seria um desdobramento daquela. A figuração só assume qualidade pictórica uma vez constituída uma afecção na superfície da tela dada pelos elementos “abstratos” da pintura.
Nestas suas pinturas recentes, há um esforço construtivo da linha que se mostra através da articulação geométrica do espaço. A presença mais evidente da figura junto à energia cromática de costume, poderia saturar a superfície pictórica não fosse esta contenção dada pela estruturação mais gráfica do espaço. Falando destas pinturas atuais, a artista declara que se sente “mais atenta à estrutura do quadro, meio que para rebater a figuração. Tenho procurado mais nitidez na estrutura, planos mais próximos, os campos de cor mais nítidos etc. Acho que no caso destes trabalhos com animais, entrou mais humor também”2. Esta maior nitidez estrutural da linha aparece mais nas pinturas do que nos desenhos. Onde a cor está mais diluída e os vazios deixam as massas de cor respirar, a linha pode ser mais solta e divagante.
O que se percebe nestas obras de Cristina Canale é uma atenção obstinada em relação aos meios da própria pintura - sua faceta moderna - ao mesmo tempo em que eles produzem na superfície da tela um repertório de sensações que intensificam nossa abertura para o mundo. Ao contrário da tradição figurativa, não há uma cena anterior ao quadro, mas sim algo que se desenvolve a partir do jogo de forças entre potências cromáticas e gráficas. É uma figuração sem representação, sem narração, construída a partir de sensações pictóricas e em nome de uma libertação das formas de ver dos modelos achatados de visibilidade.
Acima de tudo, a pintura de Canale é mais mancha do que linha, submetendo a figura às palpitações cromáticas e não deixando o contorno estabilizar-se. Nesta vibração, as coisas não se acomodam e estão sempre se contaminando, em constante metamorfose. Em um pequeno conto intitulado “Teoria das Cores”, o poeta português Herberto Helder fala-nos de um pintor e de um peixe vermelho. Quando chegava à tonalidade desejada na tela eis que surge no peixe um nó preto atrás da cor encarnada. “Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose. Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo”.3 Esta liberdade, que é uma espécie de fidelidade do artista à máxima poética de fazer ver sem se prender ao já visto, dá à pintura de Cristina Canale um frescor próprio. E, à pintura, uma atualidade necessária, de modo a multiplicar os modos e o tempo da nossa percepção das coisas.