Julio le Parc
Sheila Leirner - 2001
« A ética tem uma ambição vasta. Aquela de reconstruir os intermediários entre a liberdade que é o ponto de partida e a lei que é o ponto de chegada. » Paul Ricœur (1913 - )
André Gide dizia : «eu chamo de perdido um livro que deixa
intacto o leitor». Poderíamos aplicar estas palavras às artes plásticas em geral e à obra de Júlio Le Parc em particular. Com a diferença de que a relação do espectador com o trabalho deste artista é recíproca. No seu caso, são as obras que não ficam intactas no contato com o público. Elas se encontram, existem e se transformam apenas em função do nosso olhar, movimento e mesmo da nossa participação física. Diante delas, não somos espectadores perdidos.
Para entender melhor essa suscetibilidade dos objetos, das instalações e também das pinturas de Júlio Le Parc, é preciso conhecer o seu autor. O caminho é exatamente aquele que tomamos quando partimos inversamente do mistério à feitura concreta das suas obras. Assim como examinamos o mecanismo dos movimentos ou procuramos adivinhar o enigma da sua luminosidade, ao tentarmos compreender essa relação idiossincrática de interação com os trabalhos cinéticos ou pictóricos devemos, antes de tudo, buscar a visão do homem, do seu ambiente e da sua história.
Comecemos pela cozinha que fica à esquerda, na entrada do imenso galpão de Le Parc implantado em 1300m2 da cidade de Cachan, nos arredores de Paris. Acontecimentos significativos geralmente se dão nos lugares mais banais, porém este não é um lugar ordinário. Trata-se de um alongamento da fantástica usina artística onde a produção depende da vida operante, para não dizer operária, do seu autor. Na verdade, o que é o ateliê deste artista senão uma espécie de cozinha de «alquimias» como se intitulam as suas pinturas ?
Na cozinha, tanto quanto no ateliê, Júlio Le Parc se movimenta pausada e pesadamente como se cada gesto tivesse que decidir com muito engenho o embaraço das matérias. Com efeito, mesmo tratando-se de temperar uma salada, a resolução é sempre arguta e a manipulação habilidosa. Seu «avental» é o eterno colete de marceneiro com dezenas de bolsos recheados de lâminas, réguas, lápis, lapiseiras e canetas de todos os tipos. Sua «touca» por cima dos olhos claros e dos cabelos encanecidos, é o imutável boné preto do qual não se separa jamais e o qual imaginamos quase como fetiche ou superstição do artista. Fonte, talvez, de força e inspiração ?
Ali na cozinha, até as ações triviais parecem nascer da mesma perspicácia técnica com que Júlio Le Parc resolve as questões espaciais, gráficas ou volumétricas de suas obras e de suas maquetes. É idêntica a cadência do deslocamento que a sua figura corpulenta realiza entre os objetos e pacotes apinhados no estúdio para procurar uma planta baixa, uma amostra de metal ou de acrílico, ou os pequenos gabaritos com que transforma as escalas aos nossos olhos. A não ser quando, sob os olhos atônitos de Martha sua mulher, o puro acaso faz com que Júlio deixe cair o frasco repleto do azeite de oliva trazido em galão da Espanha, onde fica a sua casa e ateliê de verão.
Olhando-os assim de pé, indecisos diante dos cacos sobre o azeite esparramado nos azulejos brancos, não fica difícil imaginar o homem de quase dois metros e porte atlético que foi Júlio Le Parc quando encontrou a bela Martha na juventude revolucionária da Escola de Belas Artes em Buenos Aires. Também não é menos romanesco refazer mentalmente o seu percurso desde o nascimento em Mendoza em uma família de operários até o trabalho de aprendiz em curtume e metalúrgica. Supõe-se o colorido cinematográfico daquela vida errante pelo interior da Argentina até o auto-exílio em 1958, em Paris para onde sua mulher, também artista, o seguiu por amor e pelos mesmos ideais, renunciando ao conforto e à segurança burguesa.
O pequeno incidente do vidro quebrado, no entanto, acaba confirmando também essa espécie de Hermes com a sua «mètis» característica, ou seja com a destreza e a esperteza dos homens que se fizeram sozinhos. Antes que as singelas providências femininas se limitassem à trabalhosa e desajeitada tarefa da pá e da água com sabão, o artista já estava de volta com um saco de gesso que absorvesse o óleo e uma vassoura que varresse de uma só vez todos os detritos. Esse é Júlio Le Parc. O homem da ilação que consegue reduzir quaisquer circunstâncias ou elementos a um resultado lógico e operante, seja ele na vida ou na arte.
Não que Le Parc em seu grande armazém pratique uma bricolagem inconseqüente. Ao contrário. A sua lógica e coerência residem exatamente no princípio, pode-se dizer, político e social, que o guiou desde o rompimento com a família aos 20 anos e a insubmissão aos valores vigentes. A sua congruência está desde sempre no experimentalismo que o levou, a partir da adolescência, não apenas a provar trabalhos como o de porteiro de teatro ou de ator, mas a procurar, já como artista de vanguarda, as contradições e os limites da própria linguagem estética.
Assim, desde o início em Paris, ele já estabelecia uma maneira sistemática de trabalho, tomando por base seqüências e progressões para obter resultados óticos. Criticava a atitude dos artistas construtivistas e cinéticos da época que utilizavam a eleição livre das formas e a sua expansão fortuita na superfície e no espaço. Ligava-se à Denise René, Vasarely, Vantongerloo, Morellet e outros, para fazer investigações visuais sobre a superfície, as ordenações regulares, a homogeneidade das conformações e das relações entre elas, a seqüência progressiva de figuras, cores e posições. Debatia-se com os problemas da pós-imagem, da instabilidade visual, da decomposição do plano, e já realizava os primeiros ensaios com as imagens-luz.
A partir da fundação do GRAV ( Grupo de Investigação de Arte Visual ) em 1960, no qual desenvolveu-se um profícuo confronto entre idéias e experiência, a trajetória de Júlio Le Parc tornou-se ainda mais complexa. Em 68 e 69, por exemplo, poucos sabem que a irreverência e as atividades políticas foram responsáveis pela sua expulsão da França junto com outros artistas e intelectuais (que ficaram seis meses pela Europa) e que, ainda com eles, boicotou a «Documenta» de Kassel, assim como a Bienal de São Paulo durante a nossa obscurantista ditadura militar.
Têm-se pouco conhecimento também que Porto Rico, Cuba, Colômbia, Argentina, Chile e outros países da América Latina receberam nos anos 60, 70 e 80 este artista militante que acreditava no poder revolucionário da arte. E que o clímax destes quase cinqüenta anos de atividades ocorreu em seu país de origem em 1988, com uma enorme retrospectiva e um famoso espetáculo pirotécnico em colaboração com Astor Piazzolla na Recoleta.
Embora fascinante, é impossível descrever o caminho de Júlio Le Parc num curto texto de apresentação. Ele é permeado, além do mais, de textos coletivos, manifestos, apresentações de experiências pessoais e coletivas, debates, viagens, atividades didáticas, exposições, e a confecção de milhares de objetos, móbiles, relevos, pinturas, instalações, obras de participação, trabalhos públicos e privados.
Hoje, como sabemos, a carreira de Júlio Le Parc gira numa verdadeira espiral ascendente com mostras em várias partes da França e em outros países da Europa, da América Latina e do Norte. Graças a Fábio Magalhães, e depois a Emanoel Araújo e à Nara Roesler, o Brasil teve o privilégio de iniciar o contato com esta obra monumental pela primeira vez em Porto Alegre na II Bienal do Mercosul em 1999, de onde ela continua à Pinacoteca do Estado, à esta galeria e seguirá ainda irradiando-se por outros Estados.
Da cozinha ao mistério da criação, da obra autônoma à atividade política e social, do micro ao macro-universo, o mundo de Júlio Le Parc é uno. Nele, o espectador não está perdido não apenas porque participa física, espiritual ou históricamente dos trabalhos, mas porque também acaba incluído na unidade indissolúvel entre a ética e a estética, as duas partes elementares que os compõem.