Uma exposição dentro de uma exposição: o mundo do mínimo, de Jeanete Musatti
Ricardo Resende - 2008
Parafraseando o crítico de arte norte-americano, Arthur C. Danto, a arte de Jeanete Musatti “transfigura o lugar comum” das coisas1, trabalha com situações de aparente banalidade, que não têm mais importância no dia-a-dia da sociedade contemporânea, e transforma-as em objetos de arte, em pequenas instalações, em arte em miniatura. As situações criadas nestes “ambientes” artísticos (fechados ou não em uma vitrine) representam eventos reais que habitualmente passam despercebidos por sua simplicidade, diante da tamanha ansiedade e quantidade de informação que envolvem a vida urbana contemporânea.
A artista paulistana, neste gesto simples do acumular (colecionar) e acomodar seus pequenos “achados”, recolhidos em antiquários, nas casas da família, nas ruas das cidades, na areias das praias, nas matas que percorre, elabora uma cartografia de seu percurso, de sua existência, como pode ser observado no trabalho Estreito de Corintho, de 2006. São fotografias dispostas em uma coluna fixada ao lado de uma “vitrine” sobre uma base que contém uma cena da história da humanidade. Vê-se restos de dois templos e a imagem de uma estátua atolados na própria areia que os constituía, como a existência e a história da humanidade que se desfazem na passagem do tempo. Na coluna de fotografias é interessante observar uma única e micro estatueta colocada de costas a observar a paisagem vista na fotografia à sua frente. Seria uma maneira de se retratar a si mesma a observar, evidenciando a nossa insignificante escala diante do que se vê no mundo?
A trajetória de Jeanete Musatti é um longo caminho contabilizado em mais de quarenta anos, uma carreira artística que tem seu cerne na observação e coleta destes pequenos objetos e suas transfigurações/releituras, com a posterior catalogação dos mesmos, conferindo-lhes um sentido museológico ao transformá-los em suas obras de arte. Seus trabalhos são a recriação de seu mundo interior ou para melhor localizá-los dentro de uma das categorias da arte, tais “ordenações”, tratam do que podemos denominar “paisagens interiores”, pequenas paisagens sublimes que exigem do observador um gesto de curvatura, uma quase reverência a estas pequenas janelas de sua alma e imaginação, que descortinam não para o mundo exterior, mas melhor, para dentro de si mesma.
A ação da artista está em deslocar cenas da vida cotidiana para o espaço expositivo de vitrines, mostruários, caixas de vidro, sobre o tampo de uma mesa. Nada mais do que uma investigação e exposição do íntimo. Ao mergulhar o olhar neste mundo do mínimo de Jeanete Musatti, deparamo-nos com o silêncio essencial para a existência de uma obra de arte.
O procedimento de constituição de arquivos, atualmente em voga na arte copntemporânea, esteve presente na obra de Jeanete Musatti desde o início de sua carreira: a arte transformada em algo como um arquivo, um pequeno museu de curiosidades, um guardado da memória e das experiências vividas plásticas, estéticas ou sensoriais, o todo organizado de modo a constituir um campo artístico magnetizado, como podemos observar no trabalho sem título, de 2004/2008, em que organiza uma carcaça ou concha marítima dentro de um pequeno berço e duas silhuetas de pequenos pássaros postados lado a lado como a olhar para esta cena. Todos são feitos em metal fundido ou latão. Estes objetos arranjados, não importa o lugar ou a superfície em que estejam, são de uma intensidade plástica impressionantes.
Nesta exposição, a artista os colocou em uma espécie de estante, com o fundo coberto por duas fotografias. Ambas têm um mesmo ninho em comum ou pêlos, que nos conduzem a idéia de um ninho de pássaros. A primeira foto traz uma estatueta de uma possível bailarina, daquelas que costumamos ver em caixinhas de música emergindo dos fiapos que formam este abrigo. Divide o aconchego do lugar com algumas pedras.
O outro ninho traz dois fósseis de conchas. Uma de caramujo e a outra é uma dessas que se encontra comumente nas praias. O resultado dessa “arrumação”, como acontece em muitos dos trabalhos da artista, faz surgir uma atmosfera supra-real, algo fantasmagórica, como um jogo de memória assustador ou um pesadelo, apesar das figuras serem delicadas; dois pássaros que algo anunciam.
Em outro trabalho que compõe esta mostra, o Delicadezas da Alma, de 2008, são várias e pequenas molduras que funcionam como caixas nas quais a artista cria uma cartografia na forma de cenas isoladas das delicadezas humanas. As cenas são compostas de pequenas imagens de figuras humanas, talvez da França de Luiz XV. O fundo é um emaranhado de linhas que criam um sentido organizado e em cores. Em alguns parecem tratar de uma representação de uma pintura expressionista gestual, uma quase pinturinha de ação.
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A tarefa de escrever um texto sobre Jeanete Musatti, depois do belo ensaio de Casimiro Xavier de Mendonça, que traça um minucioso percurso pela obra da artista, mais o texto competente da crítica de arte e historiadora Aracy Amaral, torna o meu trabalho árdua tarefa. Parece que tudo que o poderia ser dito já o foi.
Depois de ler Casimiro Xavier de Mendonça, que merece aqui também ser lembrado por sua obra crítica, não vi outro caminho a não ser abordar e refletir sobre a problematização do uso da vitrine e dos espaços confinados para suas “pequenas arqueologias”, como a própria artista se refere à sua obra, neste texto publicado no livreto intitulado “Jeanete Musatti”, da editora “Ex Libris”.
Colecionando ou simplesmente ajuntando dados (objetos) ou apenas vestígios (textos e imagens) de suas passagens pelo mundo, temos na história da arte recente Alan Kaprow na década de 60, Sofie Calle, nos anos 70 e mais um cem números de artistas daquelas e das gerações seguintes que se utilizam de vitrines, caixas, malas, sacos plásticos, bases ou estantes, como suporte para seus trabalhos. Marcel Duchamp, Arman, Christian Boltanski, Joseph Beuys, Damien Hirst, Jeff Koons, Rosângela Rennó, Farnese de Andrade, Nina Morais, Amélia Toledo, Arthur Bispo do Rosário, Nelson Leirner e os mais recentes brasileiros Carla Zaccagnini, Mabe Bethônico, Cláudia Sampaio, entre outros, levam a cabo este desejo de criar, como define Elisabeth Roudinesco, um “arquivo absoluto”: …“eu própria refleti sobre a questão do arquivo em psicanálise, a maneira de constituir um arquivo, a “relação trágica e inquieta”, como diz Derrida, que se pode manter com o arquivo, com o espectro do arquivo absoluto, com essa idéia louca segundo a qual podemos arquivar tudo.”2
O procedimento “arqueológico” de acumular coisas já é antigo na história da arte, portanto. Muitos artistas criaram ou criam esses “lugares comuns” com suas “coleções”, frutos de suas observações arquivistas. Seriam formas de tentar apreender ou “olhar o mundo através de um enquadramento”3, como escreve Bernadette Panek, na sua tese de doutorado, pesquisa a que recorro para pensar a função da vitrine na obra de Jeanete Musatti: não um espaço neutro e protegido, mas um lugar ilimitado onde se observa fragmentos da vida através dos objetos acumulados e rearranjados.
Mesmo quando Musatti não isola a “cena” em uma vitrine ou caixa, deixando os objetos soltos no espaço, o fato de serem colocados e trabalhados como miniaturas ou recortes congelados de uma cena vivida, é uma forma de isolá-los do mundo dito real. A diferença de escala e o isolamento em si são formas de um distanciamento ou de representação da realidade.
“Outro limite colocado pela vitrine pode ser a determinação de um campo isolado de ação. Desta maneira, o artista provoca a criação de um mundo autônomo, de caráter próprio, independente do mundo exterior, delimitando e organizando elementos para que coexistam e, de certa forma, se relacionem nesse mesmo espaço. Ele constrói um pequeno mundo, cria situações especificas e praticamente nega influências externas. Propõe uma relação a fim de eternizar certas relações vizinhas apenas no interior dessa área.” 4
Jeanete Musatti apreende o tempo nas suas vitrines. Ela parece ter o desejo de eternizá-lo através do objetos e situações museificados. As vitrines que abrigam cenas em miniatura, portanto, funcionam como congelamento ou concentrador do tempo. A obra de Jeanete Musatti é sempre ilusão ou a representação diminuída de uma realidade. Ao trabalhar com miniaturas ou apenas deslocando objetos, reduz o mundo a uma pequena escala.
Desenhar, pintar, colar, colecionar, ajuntar são formas de querer dar sentido à própria vida. Jeanete Musatti é do mundo das pequenas coisas, um mundo em escala menor.
i Como Danto descreve no livro que leva o título que inspira as primeiras linhas deste texto, “A transfiguração do Lugar comum”, uma coisa é uma coisa e não tem outro sentido que não o de uma coisa que “como classe, não tem um “sobre-o-quê,”” é apenas uma coisa)
ii ROUDINESCO, Elisabeth. A análise e o Arquivo. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 2001, pg. 8 e 9.
iii PANEK, Bernadette. In: O espaço isolado da vitrine: espaço de autoria. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes, Área de Consentração Teroria, Ensiono e Aprendizagem, Linha de Psquisa História da Arte, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do Título de Doutor em Artes, sob a orientação do Prof. Dr. Domingos Tadeu Chiarelli. A pesquisadora dedica seu trabalho acadêmico à análise da utilização da vitrine como espaço integrante da obra de arte.
iv Ibidem.