Slow Poltics
Adriano Pedrosa - 2008
“O exame de uma resma da melhor qualidade de papel branco prova que é impossível encontrar uma folha absolutamente branca e silenciosa dentre 500 exemplares.” - Marco Maggi
O grande movimento visual do século 20 é o da velocidade. Ela transforma radicalmente a paisagem, a cidade, a arquitetura e as coisas; se não as banaliza, ao menos as simplifica visualmente. Com a invenção e a popularização do automóvel, o sujeito pode deslocar-se rapidamente pela cidade e seu olhar percorre as ruas e estradas em alta velocidade. Sua experiência visual e perceptiva transforma-se completamente. A partir de então, o sujeito não é mais capaz de perceber, por exemplo, os detalhes de ornamentação e acabamento das casas e dos edifícios típicos da era pré-moderna. A fachada e a paisagem precisam simplificar-se para serem percebidas pelos olhos que passam por ela com rapidez. A arquitetura e o paisagismo modernistas, com suas linhas retas e superfícies planas, são, em grande medida, uma resposta à aceleração. Nesse panorama, a rapidez e a banalização do olhar e da visualidade se tornam uma ameaça para a decadência estética. O risco: a arquitetura e o urbanismo de grandes fachadas como cartoon ou caricatura, que podem ser compreendidos e apreciados com um só lance de olhos. A velocidade também encontra ímpeto avassalador na mídia – na televisão, na internet, na globalização. A ocorrência de notícias deve ser adequada a seu consumo diário e mediático, o que dá lugar ao fenômeno da produção (em oposição ao relato) de notícias. Na contramão desse movimento encontra-se a arte – antiga, moderna ou contemporânea. A despeito da multiplicação desenfreada de obras, exposições, feiras, coleções, museus, bienais e trienais, a arte insiste em demandar uma desaceleração, uma pausa (a exceção talvez seja Andy Warhol, que, em certa medida, incorporou a multiplicação e a aceleração em sua obra, embora sejam necessários tempo e dedicação para compreender isso).
A obra de Marco Maggi (Montevidéu, 1957) finca trincheiras nesse embate com a velocidade. “O papel é meu propósito. O tempo, assim como o foco, é meu meio predileto”, afirmou o artista. Seu trabalho consiste em finos, precisos, delicados e sutis desenhos (às vezes feitos mesmo sem grafite ou tinta) de intrincados padrões, em geral abstratos e geométricos, mas que remetem a arquiteturas, grades, teias, paisagens, mapas ou diagramas – reais, imaginários, fabulosos ou idealizados. O desenho de Maggi assume diferentes meios: em grafite sobre papel ou sobre o passe partout da própria moldura (como em San Andreas Fault, 2008); feito com ponta seca em papel alumínio, que por sua vez é apresentado emoldurado (como em Slow Foil, 2008), enquadrado por molduras de slides (como em Sliding, 2008) ou no próprio rolo do laminado; em incisões sobre acrílico (como em Slow Shadow, 2008, no qual, sob a luz, os riscos no acrílico transparente que emoldura o quadro geram finas linhas de sombra no papel em branco), ou sobre pilhas de papel. As obras são, em geral, de pequenas dimensões (e, quando são no caso de grandes instalações, são compostas por um conjunto de várias pilhas de papéis que dificilmente são percebidas de longe), feitas com paciência, concentração, atenção ao detalhe e precisão. Aqui, não há gestos bruscos, violentos, grandiosos e expressivos. Embora haja excesso. Nesse contexto, é preciso se aproximar das obras para compreender o microuniverso, pequeno e vasto, que elas contêm. Não por acaso, os trabalhos de Maggi são difíceis de ser reproduzidos e registrados em fotografia; é preciso vê-los ao vivo, inspecionar sua superfície, sua linha, seu corte, sua sombra, seu relevo, sua transparência.
Desacelerar, demanda-nos Maggi. A referência surge mais obviamente em dois de seus títulos, em São Paulo: Slow Foil (Papel Alumínio Vagaroso) e Slow Shadow (Sombra Vagarosa). Surge também em Sliding (Deslizando, que, no original em inglês, remete ao objeto slide, cuja moldura é utilizada na obra), onde o slide evoca o still ou o fotograma, a suspensão do movimento cinemático. A desaceleração surge também, de forma mais oblíqua, porém penetrante, em uma série que o artista desenvolve desde 2005 denominada The Ted Turner Collection – from CNN to the DNA (A Coleção Ted Turner – da CNN ao DNA). O título refere-se, ironicamente, ao norte-americano Ted Turner, um dos mais celebrados magnatas da mídia, conhecido por ser o fundador da rede de televisão a cabo CNN, que revolucionou o mercado de consumo, distribuição e fabricação de notícias. Com essa série, Maggi cruza diferentes velocidades – da vida, da mídia, da globalização, da arte. Nas palavras do artista: “Em Da CNN ao DNA, eu foco minha atenção na leitura de superfícies sem que eu tenha a menor esperança de me informar sobre elas. Todos os dias estamos condenados a saber mais e compreender menos.” Nos trabalhos da série, Maggi se apropria de reproduções de obras de grandes artistas modernos – como Jasper John, Sol Lewitt, Lucio Fontana, Kasimir Malevich, Piet Mondrian e Robert Ryman –, vira a imagem de costas para o espectador, adiciona pilhas de papéis a ela e então realiza cortes na superfície, criando pequenos relevos em papel e revelando, aqui e ali, filamentos e fragmentos das obras-prima ocultas. O resultado, em geral, assume características de uma grade minimalista quase que completamente branca – com exceção dos pequenos fragmentos e filamentos coloridos das obras apropriadas. O título individual de cada um dos trabalhos faz outra referência ao perverso mundo da mídia, no qual muito se mostra e pouco se vê: Complete Coverage (Cobertura Completa). Para São Paulo Maggi trouxe “coberturas completas” de obras de Gerhard Richter e de Warhol, bem como de figuras fundamentais do modernismo latino-americano, como Lygia Clark, Jesus Soto, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Mira Schendel. Nesse contexto específico, a estrutura de grade branca dos trabalhos lembra alguns relevos de Pape da série Grupo Frente (1954-56).
O jogo que Maggi nos propõe é repleto de grandes ocultamentos e estratégicas revelações. É preciso olhar com tempo. A recompensa pode recordar o aleph, de Jorge Luis Borges, aquela pequena esfera brilhante em movimento pulsante que encerra nela todo um universo. Contudo, trata-se de um jogo silencioso, delicado, vagaroso. Nesse sentido, encontramos aqui um sutil viés político, ainda que mascarado pela beleza e pelo deslumbramento das obras. A desaceleração é antimoderna, antiprogressista, anticapitalista, antiurbana e antiglobalização. Como uma espécie de Fausto contemporâneo, o artista parece nos dizer: “Pára, instante que passa”. Seu pedido dificilmente será atendido, e é justamente por esse seu traço de resistência que a arte se torna tão fundamental em nosso cotidiano.