“inVocación” (inVocação)
Félix de Azúa - 2006
Esplendor y nada - Editorial Leqtor
Conta o neurologista Oliver Sacks, nas suas memórias, a intensa emoção que sentiu ao descobrir, aos doze anos de idade, a tabela periódica dos elementos químicos. Perceber que a imensidade do mundo poderia ser reduzida a um discreto conjunto de corpos simples que, como peças de xadrez, permitia uma quantidade de combinações que podia formar essa desmesurada diversidade do que chamamos
, marcou a sua vida inteira. Compreendeu num estalo que a aparência caótica e frágil da vida tinha uma sustentação secreta, duradoura e cognoscível. Talvez a tabela de Mendeleiev fosse uma fantasia otimista ou um mero consolo, um modo de sustentarmos, nós humanos, puxando bem para cima de nosso próprio cabelo, mas, os nomes daquela tabela: lítio, sódio, potássio..., estavam carregados da potência que outrora a tiveram os deuses, para nos ajudar a suportar o medo e a dor.
Lembro também do meu estalo infantil de compreensão. Foi num dia de verão, após uma chuva breve, quando vi no mato a teia de uma aranha epeira salpicada de minúsculas gotas. Ela estava no centro da rede, nas costas exibia uma cruz, e se balançava suavemente. As gotas cintilavam e tremiam. Eu era uma criança influenciada pelas histórias em quadrinhos e pelo Walt Disney, de modo que eu via as aranhas como monstros sugadores de sangue, mas aquela conjunção de geometria, crueldade e esplendor me pareceu sagrada e quis formar parte dela.
Assim como Sacks intuiu a capacidade da mente para fazer do caos um mundo, e dedicou-se a explorar cérebros, eu intuí, com certeza, a impossibilidade do mal e a necessidade que até o mais espantoso coubesse num relato credível, no discreto âmbito de um poema, talvez, ou em artefatos sem outra finalidade que não fossem afirmar a vida, uma parte da qual é, de fato, espantosa.
É possível que todos nós conheçamos, em algum momento da nossa infância, essa iluminação súbita que determina para sempre um modo de entender e suportar a nossa minúscula presença no cosmos, e o que sustenta a teimosa afirmação da nossa duvidosa vitória sobre o nada. Mas, é uma luz que não vemos, por tê-la sempre diante dos olhos.
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