Rio-máquina

Na época da 29a Bienal Internacional de São Paulo, a Galeria Nara Roesler apresenta uma monumental instalação de Artur Lescher. Rio-Máquina (2010) ocupa integralmente o espaço expositivo, que sofreu adequações para abrigá-la devido às condições de escala e peso. Desdobramento de discursos sobre o rio que o artista vem desenolvendo desde 2006, a obra, construída com três toneladas de malha de aço inoxidável, flui suspensa por cilindros metálicos. O fluxo dessa máquina-rio é ativado à medida que o espectador se desloca, provocando a sensação de que a malha está em movimento.


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Rio-Máquina (2010) reafirma o permanente interesse de Lescher pela síntese, pela tensão e pela instabilidade no território das formas e do espaço, como meio de construção de insólitas paisagens. É marca ainda de seu vocabulário o desafio à geometria e aos materiais para instaurar insuspeitadas possibilidades ao objeto. Para o crítico Adolfo Montejo Navas, essa versatilidade formal e espacial faz parte do requinte semântico e instrumental da poética do artista, de sua partitura de imagens: de certo ar suspenso de seus trabalhos, até quando são de um peso abrumador ou de alta presença. “Leveza e opacidade que, juntas, permitem abraçar a dupla condição do material e do imaterial, presença e ar”, completa Navas.

Segundo texto de Paula Braga sobre o trabalho que estará em exposição na Galeria Nara Roesler, Artur Lescher reativa a fé neoconcreta na expressividade dos materiais. “A interação entre o trabalho e o espectador confere a Rio-Máquina um estatuto de ‘quase-corpo’, estado que alguns artistas brasileiros, no final dos anos 1950, se esforçaram para conferir aos materiais”, diz a crítica que lembra também uma famosa frase de Lygia Clark sobre sua obra Bichos: “Quando alguém me pergunta quantos movimentos um Bicho pode fazer, eu respondo: eu não sei, você não sabe, mas ele sabe [...] Ele é um organismo vivo, um trabalho essencialmente ativo.”

Para Lescher, a sua obra está bastante próxima da ideia de animação ao associar uma personalidade a cada tipo de material, tentando compreender a vontade do ferro, o humor da madeira, ou a forma como cobre interage com outros personagens colocados nas paisagens que constrói. “A pedra talvez tenha uma vontade, conforme Nietzsche, mas em um tempo, em uma duração que dificilmente perceberemos”, completa o artista.

Artur Lescher (São Paulo, 1962), que participou da 19ª e da 25ª Bienal Internacional de São Paulo (1987 e 2002) e da 5ª Bienal do Mercosul (2005), começou a sua carreira na década de 80. Apesar de trabalhar com foto e video, o artista é reconhecido principalmente por sua produção de esculturas e instalações, apresentados nas diversas participações em mostras, nos principais espaços da arte no Brasil, como MAC, MAM, Itaú Cultural, Paço das Artes, Centro Cultural São Paulo, SESC Pompéia, Memorial da América Latina, Paço Imperial, entre outros. No exterior, já participou de coletivas na Alemanha, Espanha, França, Estados Unidos, Equador e Colômbia."

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