Rio de Contas

Germinados por contas, de formatos e cores diferentes, em resina, plástico, acrílico e madeira, moldadas por um arame, surgem continentes, rios, caravelas, luas – a singular paisagem de Luiz Hermano. Mas “conta” também significa aritmética, cobrança, despesa, além da pequena peça usada para bijuterias. “De fato, os trabalhos de Luiz Hermano são feitos de contas, e envolvem um raciocínio matemático para sua elaboração, mesmo que esse raciocínio tenha algo de intuitivo, como se ele fosse tramado silenciosamente durante o seu fazer”, destaca Cauê Alves.



Esse jogo entre “estrutura e indeterminação” percorre a poética da nova série de 14 trabalhos que o artista apresenta na Galeria Nara Roesler. Segundo o crítico, para Hermano não há simplesmente um projeto a ser executado, mas sim a invenção que surge do contato direto com o arame e as contas. “O valor do seu trabalho obviamente não está no material ordinário empregado, mas na rede ambígua de relações e formas em que natural e artificial, ou artesanal e industrial, não se opõem claramente”.

Com sua matemática sensível, Luiz Hermano criou obras com estrutura de conjuntos, como Continentes e Caravela cujo princípio de organização de alguns volumes configura o todo. Já os outros se estabelecem pela unidade, como Rio das Contas, com suas correntes que formam rodamoinhos, Artifícios, no qual peças pretas e brancas listradas provocam ilusão de movimentos, além de Sudário, Lua Cheia, Trombetas e as demais obras que compõem a exposição.

Da alma que não abandona o povoado cearense de Preaoca e da mente alimentada pelo estudo das artes e da filosofia, o olhar erudito e popular fundem-se na gênese da contemporânea obra de Luiz Hermano. Tanto que seu trabalho também pode ser visto na exposição Puras Misturas que marca o surgimento do Pavilhão das Culturas Brasileiras, no antigo prédio da Prodam, no Parque Ibirapuera.

Luiz Hermano (Ceará, 1954) depois de passar pelo Rio de Janeiro, veio morar em São Paulo, quando seu trabalho chamou a atenção do professor Bardi que o convidou a realizar uma exposição de desenhos no MASP, em 1979, e outra de gravura, em 1981. Desde então, vem construindo uma respeitável trajetória no circuito das artes, com inúmeras individuais e coletivas nas principais capitais brasileiras e no exterior (Alemanha, França, Estados Unidos, Cuba, Espanha). Em 2008, realizou a individual Templo do Corpo, na Pinacoteca de São Paulo, quando também lançou seu livro Luiz Hermano, pela Imprensa Oficial, com texto de Agnaldo Farias, curador da 29ª Bienal Internacional de São Paulo, e fotos de Vicente Sampaio. Suas obras ainda fazem parte de acervos e coleções de prestígio – Coleção Patricia Cisneros, Caracas, Venezuela; Coleção Gilberto Chateaubriand, RJ; Biblioteca Nacional de Paris, França; Masp, São Paulo; MAM, São Paulo; Pinacoteca do Estado, São Paulo; MAC/USP, São Paulo – e da Estação República, no Metrô de São Paulo.
desenvolvido por