Na X Bienal de Havana realizada este ano, Paulo Bruscky (Recife, PE, 1949) ganhou uma Sala Especial. Merecida homenagem a um brasileiro que trilhou sua obra por meio da experimentação e do compartilhamento, ao abordar, como um dos aspectos centrais de sua produção, a circulação do objeto artístico. Segundo o crítico Adolfo Montejo Navas, a obra multiforme e plural de Paulo Bruscky, além de promover uma escritura feita com signos próprios, não cadastrados pelo “grande costume” nem pela “coisificação” cultural, representa uma das maiores expansões de escrita ampliada dentro da arte brasileira e internacional.
Artista multimídia e poeta, pioneiro no Brasil da arte xerográfica e postal, Bruscky, assim como seus colegas de geração, acredita que os elementos constitutivos da obra de arte estejam logo ao redor, ou seja, na vida. O artista, que manteve intensa troca de correspondências com Hélio Oiticica e que dialoga com o movimento Fluxus, reúne nesta sua primeira mostra na Galeria Nara Roesler 17 trabalhos, entre instalações em diferentes materiais e plotagens.
Uma grande caixa de luz (1,70 metros de altura) e pequenos tubos de ensaio recheados de jornal compõem a instalação Ensaio (2009), disposta no centro da galeria, correlacionando ciência, experimentação e arte. Em Classificados (2009), o artista acentua seu interesse pela circulação, ao fazer uso da seção dos classificados de jornais para anunciar uma ação/instrução, sobre a ideia de obra de arte. Desde a década de 70, Bruscky vem desenvolvendo esse trabalho, que surpreende o leitor e o torna cúmplice da própria obra. Por isso a exposição também reúne plotagens de anúncios antigos.
Na entrada da galeria, impressa no chão, está Cuidado com o vão entre o trem e a palavra (2008), proposta de plataforma de circulação para o espectador embarcar, como num trem, na exposição. Meu cérebro desenha assim (2007) reúne imagens de exames neurológicos ligadas, cada qual, a um determinado pensamento do artista, feitas no momento do eletroencefalograma. Já a instalação Fontes (1982-2009), composta de 20 caixas de som, colocadas em formato de fontes, fazem jorrar o respectivo som das águas das 20 fontes mais conhecidas do mundo. Por sua vez Boa Noite (2007), feito com várias sentinelas para matar mosquitos, ocupa o jardim da frente da galeria, enquanto em Homenagem a Klebinikov (2008), o artista rende tributo ao poeta russo.
Paulo Bruscky realiza também filmes, vídeos e vários livros de artista, além de organizar diversas exposições coletivas, como a 1ª Exposição Internacional de Arte Postal, em 1975, e Artedoors, a primeira mostra internacional de arte em outdoors, em 1981, ambas em Recife. Em 1976 organiza, junto com Daniel Santiago, a 2ª Exposição Internacional de Arte Postal, que é fechada pelos militares brasileiros. Esse tipo de perseguição e censura vigora em toda a América Latina até 1980, quando a arte postal volta a se fortalecer, ganhando em 1981 uma sala especial na 16ª Bienal Internacional de São Paulo, na qual Paulo Bruscky é um dos expositores. Nesse ano, recebe prêmio da Fundação Guggenheim, e passa a desenvolver suas pesquisas em Nova York e em Amsterdã. O artista possui importante coleção de livros de artista, vídeos, envios postais e filmes, além de obras de sua autoria que nunca foram expostas, como o trabalho O Guerrilheiro que lhe rendeu o 1º Prêmio no Salão de Pernambuco, em 1969, e retirada da exposição por ordem do exército. Em 2004, a 26a Bienal de São Paulo transportou seu arquivo de cartas, filmes e anotações de Recife para uma sala especial do pavilhão da bienal.