pintura numerosa

Novas possibilidades da poética geometria de José Patrício que, a partir do verso das peças de dominó e uma particular paleta de cores constrói seu inconfundível campo pictórico, podem ser apreciadas nesta exposição que reúne 10 obras inéditas, de 1,48 x 1,48 m (2006/2007). A repetição de uma mesma estrutura que muda de configuração, revelando a inesgotável invenção do artista pernambucano, pode ser ainda conferida na animação "Camaleão", que reúne grande parte de sua produção, e que também será apresentada na mostra. “Todo o meu trabalho é uma tentativa de integrar os elementos em um todo – essa unidade que a gente procura na vida”, costuma dizer.

A síntese de sua produção é estar entre a linha tênue que reúne rigores construtivos e uma maleabilidade que desfaz a regra, abrindo espaço para o imprevisto. Andar nesta fronteira pode ser visto como uma tentativa de dialogar tanto com um legado moderno que preconizava o projeto, a possibilidade de realizar uma ordem no campo da arte que extrapolasse para a vida, bem como um lance de dúvida diante desta herança, mostrando o caráter decisivo do acaso.

Nesta nova série, José Patrício utiliza cores vivas que remetem às festas populares de sua terra natal, às barracas armadas nas feiras locais, que freqüentemente apresentam seus próprios padrões geométricos. Segundo o crítico Michael Asbury, tais características aparecem nestas pinturas, nas quais Patrício recupera uma linha de pesquisa que tinha iniciado, paralelamente à serialização das peças de dominó: sua série de 112. Interrompida temporariamente, essa linha mantém o formato em espiral, enquanto a serialização numérica é substituída pelo simples posicionamento de seqüências de receptáculos de tinta (dominós de fabricação barata, emborcados), estabelecendo um ordenamento da cor.

O crítico explica também que em vários desses trabalhos, a cor ainda é submetida a uma base numérica, produzindo certos efeitos de superfície que são descobertos não só pelo observador, mas também pelo próprio artista, enquanto elabora seu trabalho. “Podemos observar nessas ‘pinturas’ – como Patrício insiste em chamá-las, devido ao ato de preencher as cavidades com tinta – a existência de uma dinâmica semelhante à de outras obras suas mais abertamente baseadas em números. Como um grupo, elas oferecem dez combinações dentro de um arco infinito de possibilidades”.

Nestas obras em exposição na Galeria Nara Roesler, segundo Asbury, torna-se aparente um certo leque de referência, como o (quase) branco sobre branco, inevitavelmente evocativo do canônico Branco sobre branco, de Malévitch (1918), ou, em outra, a presença de azul, verde, vermelho e amarelo lembrando as festas populares tão presentes no imaginário desse artista. “Igualmente presentes são as oposições entre ordem e caos, representadas pelos pares de “pinturas” de cores iguais, que ora seguem uma seqüência matemática preestabelecida, ora uma série de combinações aleatórias”, afirma.

No dia 10 de maio, o artista inaugura também, no octógono da Pinacoteca do Estado, uma instalação térrea (no chão), na qual a fragilidade da ordem é enfatizada pela possibilidade iminente de caos que a mais leve desatenção pode produzir.

Para Michael Asbury, um dos fatores que conectam essas duas exposições simultâneas é a presença ambivalente do readymade. "Se a instalação na Pinacoteca é composta por um grande número de jogos de dominó dispostos aleatoriamente conforme o conjunto de “regras” preestabelecidas pelo artista, as pinturas na Galeria Nara Roesler também têm os dominós como elemento constitutivo central, mas nelas eles são submetidos a um processo crucialmente diverso. Patrício se apropria do processo real de produção de peças de dominó, cujas incisões numéricas são freqüentemente pintadas à mão, a fim de perturbar a própria noção do readymade. Ao aplicar tinta nas cavidades invertidas, o artista apaga seu caráter de readymade e as inscreve no domínio da pintura. Ele assim resgata o ato de pintar do domínio tão conceitualmente carregado do objet trouvé ", conclui.

José Patrício (Recife, PE, 1960) é desenhista, gravador, pintor e curador, possui formação pela Universidade Federal de Pernambuco, além de ter estagiado no Atelier de Restauration d'Art Graphique, no Musée Carnavalet, em Paris, com bolsa do CNPq. Patrício já participou de diversas exposições individuais e coletivas, entre elas a Bienal de São Paulo e a Bienal do Mercosul. Recentemente participou da prestigiada mostra Os Cinéticos realizada pelo Museu Reina Sofia, em Madri, apresentada também em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake, em 2007.
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