ordenando as nuvens
A Galeria Nara Roesler apresenta a exposição Ordenando as Nuvens do artista fundador da arte-tecnologia no Brasil e um dos pioneiros da arte cinética mundial, Abraham Palatnik (Natal, 1928). Desta vez são 11 trabalhos sobre superfície, nos quais o movimento acentua-se no olho do espectador: 8 grandes pinturas em acrílica sobre madeira (2008), 2 obras em papel da série Cartões (2007), da produção mais recente do artista, e uma peça de 1968, Progressão em Madeira, de jacarandá. Realizados no plano bidimensional, ainda incluem, segundo escreve Luisa Duarte no texto do catálogo, algo da natureza da música: “possuem ritmo e duração, e assim como o som, parecem querer burlar o espaço físico dado, esgarçando opticamente os limites do quadro”.
Trata-se de peças construídas a partir da busca da percepção artística na vida cotidiana, incorporando-a ao caráter experimental da arte. “Aqui estão presentes, no plano bidimensional, o movimento, a duração, as cores, a tentativa de dar ordem ao acaso”, afirma a crítica. Como exemplo, ela ressalta as progressões em madeira, as primeiras desta série feitas ainda na década de 1960, que surgem do olhar atento de Palatnik para fragmentos de troncos. Ao observar os padrões naturais da madeira, ele busca ordenar este sistema na tentativa de organizar o aleatório. “Tudo começa com uma visada cuidadosa para o que já existe, uma abertura para o acaso, mas que só se desdobra em obra por o artista saber que é preciso estar atento ao acaso, ao inesperado, pois ali moram possibilidades poéticas insuspeitas”, ressalta Luisa.
As obras presentes nesta exposição, segundo a crítica, levantam questões como a capacidade de se preservar o experimentalismo na arte e os vínculos entre arte e vida. “Sua obra nos mostra a força do caráter experimental da arte, a possibilidade do uso da tecnologia sem perder de vista a vitalidade poética, e ainda a incorporação do mundo mais prosaico e seus acontecimentos, prontos para serem ativados pela percepção do artista e reordenados, inserindo disciplina no caos, apostando na potência poética do que é, num primeiro momento, casual. Mas sem esquecer que são eles, o caos e a aposta no acaso, que estão na origem deste existir com vitalidade, ânimo, movimento, fantasia, e beleza por fim”, explica a crítica.
Abraham Palatnik na I Bienal de São Paulo, em 1951, apresentou um Aparelho Cinecromático que, de início, não foi aceito por não se saber em que categoria colocá-lo. Logo depois, ganhou o Prêmio do Júri Internacional. Começa aí a obra de um artista que hoje acaba de integrar a coleção do MoMA, em Nova York. Histórico, Palatnik é figura central em exposições internacionais sobre arte cinética, como na antológica Os Cinéticos, organizada e apresentada no Museu Reina Sofia, em Madri, em 2007, e que veio ao Brasil, onde esteve em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em 2007/2008, conquistando o prêmio de melhor exposição do ano pela Associação Paulista dos Críticos de Arte.