Entre Miles Davis, Bach, John Cage e o próprio O Grivo, escolhi o primeiro para embalar meu cérebro na direção desta página em branco. Um texto sobre O Grivo escrito em ritmo de jazz! E poderia ser Noel ou Jimi Hendrix ou mesmo, e principalmente, o som ordinário da cachorrada latindo lá embaixo, o rumor vago da eletricidade dos postes de luz, o motorzinho siliciano deste laptop, o tac-tac-tac de meus dedos no teclado. Pois O Grivo é tudo isso e muito mais, o infinito sonoro que nosso ouvido alcança. O que existe para além da música, muito além da ditadura da partitura, o pentagrama estilhaçado em infinitas linhas.
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Dois cérebros e quatros ouvidos, duas entidades delicadas, duas paralelas complementares, em cujos nomes já estão incorporadas as características de cada um: o Nelson é o neossom, e o Canário é um canário. Como nas esculturas de Amilcar de Castro, O Grivo é uma dobra (um dobrado).
Os sons estão todos aí, expostos a um sol sem clave. É preciso proteger a existência de cada partícula sonora para que seu corpo flua límpido em nossos ouvidos. A grivolândia é uma espécie de fábrica de para-sol para partículas sonoras ou uma máquina coletora do ordinário sonoro expressivo esquecido por nós. Antes ou depois do som (ou mesmo dentro dele), existe o silêncio. O Grivo ensinou-me a escutar!
Paralelamente à coleta, existe a geração de sons. Traquitanas, geringonças, microfones, radiolas, gravador de rolo, fios de cabelo, gominhas, folhas secas, latas amassadas, fitas magnéticas, sensores infravermelhos, utensílios domésticos, brinquedos de criança, cemitério de instrumentos, cordas de náilon, crina de cavalo… qualquer coisa que vibre propagando ondas. Para além do ouvido, existe o olho. A grivolândia é também um parque de fantasias para nossos olhos. A precariedade como forma do sublime, a simplicidade (que não é simplista) estampada em cada gesto, em cada pensamento.
O som do Grivo é um pensamento que retumba e ecoa na caixa acústica da história. Miles Davis parou de tocar no meu iPod. A cidade adormece lá embaixo… A corda acorda em desacordo com acordes. Ela quer vibrar sozinha, em toda sua essencialidade, debaixo do sol, até que um grivo a grave e a proteja para (e da) eternidade.
Cao Guimarães
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Nelson Soares (Belo Horizonte, MG, 1967) e Marcos Moreira (Belo Horizonte, MG, 1967). Vivem e trabalham em Belo Horizonte.
Formado em 1990, o coletivo O Grivo notabilizou-se num primeiro momento pelas produções musicais realizadas para outros artistas, como Cao Guimarães, Lucas Bambozzi, Rivane Neuenschwander e Valeska Soares, entre outros. O grande apelo visual de suas instalações, contudo, fez que a dupla passasse a ser reconhecida pela qualidade plástica, e não apenas sonora, de suas criações, a partir pelo menos da participação na exposição Antarctica Artes com a Folha (1996). Com engenhocas bem-humoradas e aparentemente precárias, de onde brota a harmoniosa combinação de sons e ruídos que constitui sua marca registrada, O Grivo pertence ao seleto grupo de artistas sonoro-visuais brasileiros, como o coletivo carioca Chelpa Ferro ou o paulistano Paulo Nenflidio, cujas obras são comparáveis tanto do ponto de vista estético quanto pela característica de transformar os objetos mais impensáveis em instrumentos musicais. Diferentemente desses, porém, e devido talvez à formação musical de seus dois integrantes, as obras d’O Grivo priorizam a sonoridade: o efeito visual está longe de ser casual, evidentemente, mas a imagem, como eles dizem, é uma consequência da funcionalidade sonora e musical.