Entre 1818 e 1820 Arthur Schopenhauer divulgou em livros e palestras seus pensamentos sobre o belo como veículo de superação das necessidades opressoras do dia-a-dia. Ao contrário da vontade subjetiva e suas intermináveis exigências por satisfação, Schopenhauer identificou na experiência de contemplação do belo uma possibilidade de tranquilidade e apaziguamento do sofrimento causado pela sensação de carência – de mais conforto material, mais amor, mais atenção, mais reconhecimento. Ao se entrega à experiência do belo, o sujeito conseguiria por alguns instantes suspender essas vontades particulares e unir-se a um todo indiviso, ao cosmos em sua essência antes da diferenciação em vários sujeitos. Esse momento de comunhão com um todo, inapreensível pela razão, é descrito pelo filósofo alemão como fugaz: a mais tênue relação com a vontade – tal como querer ter o objeto que inspira o belo – destruiria essa conexão com a essência do mundo. O belo de Schopenhauer exige um equilíbrio que não deixa de ser um exercício mental: suspender a vontade pelo prêmio de um momento efêmero, mas precioso, de iluminação e serenidade. Nietzsche mais tarde criticaria essa tendência ascética do pensamento Schopenhauriano, defendendo um outro tipo de comportamento para se atingir a conexão com o universo, o transe dionisíaco, que abraça a vontade, os sentidos, bebe da vida até a última gota e pede mais, pede a repetição, mesmo que o gosto de sofrimento e a sensação de caos e desequilíbrio predomine.
Schopenhauer compara a vontade incessante a um sofrimento tão grande quanto a roda de Íxion, um mortal que recebeu como castigo de Zeus girar eternamente em uma roda de fogo. Insaciáveis, sempre a girar, os desejos queimam qualquer possibilidade de apaziguamento. É na contemplação estética que Schopenhauer encontra um freio para essa roda de desejos subjetivos calcinantes. A experiência do belo propiciada pela obra de arte, ao suspender o desejo, coloca-nos em contato objetivo com uma parte do mundo quase nunca acessível, as ideias. Não somos mais um sujeito isolado e sofredor, “sujeito do querer”, mas tornamo-nos o que Schopenhauer chama de “puro sujeito do conhecimento destituído de vontade: como tal ele concebe em fixa contemplação o objeto que lhe é oferecido, exterior à conexão com outros objetos, ele repousa nessa contemplação, absorve-se nela. O que exige uma ocupação detida, que a princípio lhe é estranha. Trata-se da intuição estética das coisas”.1
Se para alguns autores a arte é instrumento de transformação, anúncio de possibilidades, registro dos hábitos cognitivos de uma época ou tantas outras funções que lhe atribuem, para Schopenhauer a arte é possibilidade de libertação do sofrimento e veículo para se tocar a essência encoberta do mundo, ainda que por instantes efêmeros, o que nos conduz a um tipo de conhecimento que o pensamento racional não propicia. A contemplação da natureza, de acordo com Schopenhauer, também propicia esses instantes de suspensão e assim é fonte de conhecimento sobre o mundo para além do conhecimento científico que a disseca para conhecê-la.
A exposição Metafísica do Belo recebe o espectador com uma primeira sala dedicada aos tormentos subjetivos, à predominância do princípio de razão que tudo quer explicar e à vontade que, se traz sofrimentos, também é afirmação deste mundo físico, a vontade como um sim Nietzchiano ao mundo fenomenológico ao qual nosso corpo tem acesso imediato. Ben Vautier, figura expressiva no movimento Fluxus, recorre à palavra para expressar sua inquietude - “quero ser livre mas não consigo” --, enquanto que o homem solitário é tema do grande desenho negro e das cabeças de Gil Vicente que, como a roda de Íxion, giram em pensamentos intermináveis. A peça pontiaguda de Artur Lescher materializa em belíssima forma a razão dolorida; o torso solitário minuciosamente feito de pedacinhos de madeira por Luiz Hermano corrobora a aflição da individuação e da fragmentação; finalmente, a pintura de Karin Lambrecht desentranha-se em formas anatômicas superpostas, bem ao gosto do conhecimento racional, que analisa corpos mas não aplaca a dúvida existencial. Tudo nessa sala é matéria dividida em partes.
As obras instaladas na sala seguinte e no páteo da galeria deslumbram pela impossibilidade de serem inteiramente compreendidas pela razão. Há que se permitir o enlevo de voar com as nuvens de Eduardo Coimbra e pelas paisagens etéreas de Cao Guimarães para compreendê-las pela intuição. A luz e o estado de iluminação aparecem no grande candelabro de Laura Vinci, Lux. Na instalação de Shirley Paes Leme, a artista revela nuances da luz do espaço real, transformando-o. É a luz, ainda, a matéria prima principal da fotografia exuberante da série Stockage de Luzia Simons. Mareando, de Katia Maciel, tanto suspende pela beleza das ondas quanto aponta para a experiência de contemplação do belo na natureza. Silenciosamente, a obra cinética de Abraham Palatnik reforça a tranquilidade de uma harmonia que paira indivisa sobre essa sala. O belo aqui aflora sem o intermédio de palavras.
Equilibrando-se entre a contemplação beatífica do belo e a sofrida fidelidade ao mundo fenomênico, a obra Branco de Laura Vinci fecha a exposição com um jorro pesado de água, lavando o incômodo intelectual de se obter prazer pela contemplação do belo em uma época em que nosso relacionamento com a arte está prioritariamente cerebral.