A exposição de Cao Guimarães (Belo Horizonte, 1965) ocupa o piso térreo da galeria com duas séries de fotos e um vídeo. O vídeo Memória (2008) e as 10 fotografias de Campo Cego (2008) revelam mais uma vez o olhar viajante do artista. Essa série fotográfica, produzida em colaboração com Carolina Cordeiro, reúne placas de estrada cobertas espontaneamente por barro e poeira que impossibilitam a sua leitura. Nestes recortes de paisagens que compõem as imagens de Campo Cego, o artista evoca os códigos do homem sob a interferência da ação da natureza e do tempo, tecendo a poética da ausência. “Um conflito é retratado, no qual o deslocamento moderno, com seu discurso auto-afirmativo de progresso, é massacrado, exposto em sua efemeralidade e fragilidade, pelo poder avassalador da natureza”, escreve Michael Asbury em seu texto sobre a exposição.
O vídeo Memória, também exposto na mostra, une o presente, passado e futuro na imagem em movimento capturada através do pára-brisa de um carro que percorre uma estrada na Grécia. A paisagem aparece em ambas as direções, visto que o enquadramento engloba tanto a visão do que está à frente do carro quanto a imagem refletida no espelho retrovisor. O filme foi gravado em plano-sequência, sem cortes, de forma que exibe um retrato do tempo que passa nessa locomoção no espaço.
O vídeo assemelha-se a um registro turístico pessoal, no entanto, como observa Asbury, está em exibição pública, em uma galeria, e se intitula Memória.“Talvez possamos especular que este trabalho é o resultado da reflexão do artista sobre a colisão das duas memórias, a coletiva e a pessoal: um ensaio visual, como é frequentemente o caso de Cao Guimarães, sobre o estranhamento que se encontra no ordinário, literalmente uma reflexão do passado sobre o presente, uma pura imagem abstrata do passado, livre de idealismo e nostalgia”, analisa.
A outra sala da galeria acolhe a série de fotografias, Espantalho (2009), com uma trilha sonora sourround especialmente composta pelo grupo O Grivo para as imagens. A memória também aparece como tema implícito nesse trabalho, a memória daqueles que fizeram os espantalhos, objetos cômicos ou grotescos que carregam uma aparente personalidade, reflexos de quem os fez. As ausências de seus feitores ficam presentes em suas imagens e, segundo Asbury, são de fato incorporadas pelos próprios espantalhos que, vestindo suas roupas tornam-se espectros daqueles que os produziram.
No dia 18 de abril haverá o lançamento do livro Gambiarras, de Cao Guimarães, quando será projetado o vídeo Mestres das Gambiarras.