Mais uma vez, Jeanete Musatti nos convida a focar o olho bem perto de seus trabalhos que contam muitas histórias em outra dimensão. Agrupando objetos e materiais colecionados em suas passagens pelo mundo, a artista constrói narrativas de crítica e humor singulares, que nos lançam ao seu fértil imaginário. “...tais “ordenações”, tratam do que podemos denominar ‘paisagens interiores’, pequenas paisagens sublimes que exigem do observador um gesto de curvatura, uma quase reverência a estas pequenas janelas de sua alma e imaginação, que descortinam não para o mundo exterior, mas melhor, para dentro de si mesma”, afirma o crítico Ricardo Resende em seu texto para a exposição.
São 21 obras apresentadas em caixas ou objetos individuais, dispostas em parede ou sobre superfícies, que expressam “pequenas arqueologias”, como ela mesma se refere à sua obra. Nestes trabalhos que compõem a exposição, novamente a variedade de temas dá conta das inesgotáveis fontes de interesse da artista, que consegue transformar matérias em campos oníricos. Suas obras podem tanto surgir em forma de referências, como ao inventor da psicanálise, Para Sigmund Freud (2008), ou ao pintor alemão, Para Gaspar Friedrich (2008), quanto a partir da construção de cenas isoladas que remetem a inúmeras questões, como à delicadeza humana, Delicadezas da Alma (2008), ou à história da humanidade, Estreito de Corintho (2006).
Segundo Ricardo Resende, o procedimento de constituição de arquivos, hoje tão em voga na arte contemporânea, esteve sempre presente na trajetória de Jeanete. “A arte transformada em algo como um arquivo, um pequeno museu de curiosidades, um guardado da memória e das experiências vividas plásticas, estéticas ou sensoriais, o todo organizado de modo a constituir um campo artístico magnetizado”. Para ele, o trabalho sem título, de 2004/2008, evidencia este aspecto fundador da obra de Jeanete: uma carcaça ou concha marítima dentro de um pequeno berço e duas silhuetas de pequenos pássaros postados lado a lado como a olhar para esta cena. “[a cena] faz surgir uma atmosfera supra-real, algo fantasmagórico, como um jogo de memória assustador ou um pesadelo, apesar das figuras serem delicadas: dois pássaros que algo anunciam”, completa.
As duas últimas individuais de Jeanete Musatti (São Paulo, 1944) na Galeria Nara Roesler foram em 2002 e 2004. Artista revelação do Grande Prêmio da Crítica APCA (1983), ela ingressou no circuito das artes na década de 70 e, em 73, realizou sua primeira individual no Museu de Arte Assis Chateaubriand, com curadoria do Professor Pietro Maria Bardi. Desde então, além de individuais em museus e galerias, vem participando de coletivas no Brasil e no exterior, entre as quais: VI Bienal de Havana, Cuba, 1996; A Gift for India, Gallery Chemould, Bombay, Índia, 1997; Art Museum of the Americas, Washington DC, EUA, 2000; Paralela, 2004 e 2006: Homo Ludens, Itaú Cultural, 2005, Espasso Artistas Brasileiros, New York, 2006. Suas obras fazem parte de importantes acervos, como MASP, MAC-USP, MAM-RJ, MAC-Niterói, MAM-SP e Centro Cultural Cândido Mendes, RJ, Coleção Deutch Bank.