Brígida Baltar - e aparecer mesmo outra coisa - Museu Victor Meirelles
09/12 a 18/02/2010


Museu Victor Meirelles
Rua Victor Meirelles, 59, Centro. 88010-440 Florianópolis - SC
(48) 3222 0692

de terça a sexta das 10hs as 18hs


Amor de fresta. Era o título. Redundava porque amor é
precisamente o que se faz rasgando, faz fresta. E é também o que
se mete lá na fresta, fingindo/cobiçando ser da mesma matéria.
...
Os pés ali perto, numa beira d'água, balançado, querendo
escorrer do tornozelo e tentados a adquirir, por força mimética de
ornamento (meias e sandálias), a fluidez colorida da carpa. Não
foi sua primeira tentativa.
...
Amanheceu com neblina. Os olhos perderam as linhas que
dividem os limites entre as coisas - e adoraram porque
descansaram do eterno nomear, embora se apertassem um pouco
para ver, em vão, o que vem lá. Neblina tampouco é noite escura;
é claridade sem nitidez, sutil e silencioso apagamento. Queriam,
os olhos, possuir doses desse estranho ungüento. Houve quem se
tivesse vestido apropriadamente e providenciado receptáculos
apropriados para coletar um pouco dessa estranha substância.
Houve uma longa demora e o tempo se atrasou. De volta ao nosso
tempo, o coletor adquiriu uma certa qualidade etérea.
...
Maria Farinha anda de lado. Quase sempre em linhas paralelas a
linha vaga e indecisa do litoral. Maria Farinha mora na areia e tem
uma tentação pelo imenso aquoso do mar. Amor de desespero,
inquieto, impossível, amor de morte. Veste cor de areia e cava
buracos onde se enfia na esperança de se tornar indiferente grão.
...
Esperando o metrô. Enquanto isso, tenta coletar nos cabelos o
vento que chega antes do vagão. Em vão?
...
Uns tijolos antigos, maciços, robustos - empilhados em parede
perene, estática e demarcadora do espaço - ansiavam a fluidez do
pó que não separa nada, talvez porque já seja, ele mesmo, um
resto, vestígio de ruína. Havia também um desejo de fazer
paisagem de grandes extensões sem posse, onde se possa vagar
com o vento. Muito tempo depois, de vagar, se cansaram os tijolos
tornados pós e agora gostavam das frestas aonde iam se aquietar.
Havia uma, em longínquas terras, grande entre tábuas do chão,
de onde eram sempre varridos. Da sua memória de argila
juntaram forças para de fazerem tijolos novamente, agora
diminutos, e preencher as frestas, com a presteza das traças e
lagartixas. Não se deram conta de que não fizeram mais que
multiplicar frestas. Outros viraram cobogós, mais afeitos a
permeabilidades para ventos.
...
O mel desce as escadas, percorre as frestas, abandona-se um
pouco, e segue.

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